Entre palavras e sentimentos

vida monotona

Entre Palavras e Sentimentos: O mundo ansioso de Laura

27/11/2017 3h40

vida monotonaEsticada em uma cama, olhos arregalados, pingos d’água batem no teto, gatos fazem maratona sobre o telhado, e o tic-tac ao lado da cama registra que já se passa das 3 da manhã. É mais um dia em que a insônia rouba o sono de Laura.

    A dona insônia é causada devido às crises de ansiedade. Há anos ambas acompanham a vida de Laurinha. Agitada, acredita que o dia tem poucas horas para realizar tudo o que ela tem a fazer. Sua vida é recheada de adrenalina, mas, por tantas vezes, o seu coração é sufocado por taquicardia, seus pés e mãos viram pequenos icebergs; em seu estômago, as borboletas fazem danças em ciclos.

   E o presente?  Raramente ele é vivenciado, porque o senhor futuro chega e se apossa do seu cérebro.  A ansiedade faz com que seu ombro doa e sua respiração fique tensa. Durante o dia, nos pequenos olhos de Laura, é visível o cansaço e a tristeza de uma noite mal dormida. A falta de sono a deixa mal-humorada e irritada.

   Para muitos a ansiedade é frescura, mas para quem sofre com tal problema, é  doído. Imaginem um coração disparado na velocidade em que um atleta participa de  uma corrida. Pensou? O coração do ansioso vive assim, no ritmo de uma escola de samba.

            O tempo, tão conjugado no futuro, os medos tão presentes, a agonia dilaceradora e poucos abraços para acolhê-la. Quando o peso recai sobre seus ombros a mocinha desaba em lágrimas e, às vezes, para afagar a alma ela toma um chá quentinho.

 Seu quarto é o refúgio. Na cama, pensa no tempo. De vez em quando seu cachorrinho aparece na porta e resolve fazer-lhe companhia. Ele sabe afagar sua dona.

            Laura perdeu a conta de quantas vezes sentiu que estava incomodando uma reunião familiar, ou entre amigos. Sente-se como uma sobra no meio de uma multidão.

       Quando o dia faz um convite para apreciar o pôr do sol, Laura costuma pedalar. O vento em seu rosto a deixa feliz. O contato com o mar também a acalma. É como se nas águas ela deixasse um pouco dos excessos da vida.

 Ser ansioso  em um mundo com preconceitos é sofrido. Laura sente que seu problema é visto com indiferença por algumas pessoas. Mal sabem elas que a irritação com pequenos ruídos, ou os ataques de pânico, não é uma questão de escolha. Acontece!

Laura, querida! Amanheceres mais felizes ão de chegar. O sono que fugiu de ti há de retornar, e a leveza preencherá o coração angustiado. Sua cabeça que é conectada com o mundo e pouco para pra descansar, e a insônia que rouba suas energias, um dia se aposentarão, e você sorrirá e viverá cantarolando pelos caminhos do povoado de Ioiô.

Suerlange Ferraz

tempo

Entre Palavras e Sentimentos: Tempos das águas

10/11/2017 10h40

tempoQuando cai uma gota d’água no chão, o sertanejo faz festa. Durante duas quartas-feiras choveu em Poções. A formação da chuva, o cheiro de terra molhada, a escuridão do céu e a agitação do povo é sinal que a qualquer momento as águas se desprenderão do céu e lavará as ruas da cidade.

A chuva devolve a alegria ao homem do campo. É hora das formigas de asas fazerem visitas às casas, e de tanques, rios e barragens encherem. Época para abrir as covas e fazer plantações. Os milhos já apareceram na feira, às hortaliças estão verdes e mais saborosas, as noites mais calmas, devido aos barulhos que a chuva faz ao cair sobre o telhado. O pé de seriguela do meu quintal está carregado, as frutinhas já estão crescidas e o verde das folhas se mistura com as pequeninas flores vermelhas. As romãs estão grandes. Pelo muro vejo a mangueira no quintal da vizinha, está atulhada e as mangas aparentam ficar enormes e suculentas.

Tão necessário é ter leveza na vida. As noites chuvosas, doces e adoráveis companhias de uma criatura que convive com a insônia e vê a vida passar ansiosamente, sempre me traz ensinamentos. Tenho aprendido que a felicidade é algo simples, ela pode estar presente em uma conversa na casa de uma amiga, acompanhada de um café e uma espiga de milho cozido; ou, na rua, vendo estrelas, abraçando a vida e trocando palavras com quem nos faz bem. Aliás, ela pode marcar presença em qualquer lugar em que o coração se sinta bem e aconchegado.

As águas limpam as ruas. É tempo de limpar o coração, o guarda-roupa, a casa e os pensamentos. Tempo de ser leve, de entender que excesso de vestimentas não é sinônimo de felicidade. Momento de desintoxicar o coração, este lugarzinho por onde passa diversos sentimentos e têm dias que ele pesa e dói. Para alguns escritores ele até sangra quando está sofrendo. A cabecinha também necessita de cuidados, ela que gira igual à roda gigante, precisa de manutenção para funcionar direito.

A chuva me acalma igual às canções de Oswaldo Montenegro. Ela me nina e faz com que eu durma tranquilamente. Traz alegria para a vegetação. Veja o quão transformadora ela é! Em questão de dias o que eram galhos secos sai de cena, dando espaço para plantas verdinhas e estradas floridas. As lavadoras de roupa entoam seus cantos próximo aos pequenos rios, e os pássaros dançam no céu.

É tempo das águas, tempo de retirar os excessos e purificar a alma, tempo de se alegrar com o pingo d’água igual ao homem do campo e, se possível, brincar embaixo da chuva ou olhar as águas correndo na rua através da janela. Se por ventura faltar luz, acenda uma vela. Coloque-a na sala, sente-se no sofá ao lado da família e proseie.

Coisa mágica é a chuva! Alegra o pobre e o rico, promove reflexões, causa preocupações aos mais carentes e reúne a família. Momento em que a percepção dos sentidos é aguçada e atitudes simples como olhar para o céu, sentir o vento bagunçar o cabelo e a água molhar o rosto acabam se tornando as sensações mais gostosas que alguém pode sentir.

Suerlange Ferraz

ooo

Entre Palavras e Sentimentos: Lala, mais uma empoderada no mundo

22/9/2017 3h41

oooEm um pequeno vilarejo baiano vive Lala. Uma mulher negra, cabelo esvoaçantes, dona de uma oratória que transmite convicção e é mais uma sonhadora neste mundo. Com um pouco mais de trinta anos, ela não nega suas origens e sempre diz que os caminhos queriam que ela fosse submissa, mais uma semianalfabeta, porém as correntezas da vida a levou aonde muitos negros ainda lutam e outros já desistiram de estar, os caminhos da universidade.

Desde pequena, seus pais se esforçavam para que ela estudasse. Oriunda de escolas públicas, encarava os estudos com seriedade. Sofreu humilhações que é comum pobres e negros sofrerem neste mundo. Chorou, brincou, cresceu e muitos de seus sonhos infantis ainda estão dentro dela. A menina que se tornou mulher sempre acreditou que os sonhos jamais poderão morrer, pois, eles alimentam a alma.

Lala, não entendia o porquê de ser uma das poucas negras na turma e muito menos, quando Manuel, menino magrelo e negro, foi acusado de ter roubado uma caixa de lápis de cor que continha seis unidades de Louise. Era de causar estranheza, tudo que sumia na escola, o culpado era Neco, apelido do menino. Ele negava as acusações, chorava e por muitas vezes ouvia que era da corzinha o extinto de roubar. O menino desistiu de estudar e os roubos continuaram até descobrir que o furtador era um garoto claro e que estudava em outra turma.

Cabelo esponja de aço, tifuti, rolo de fumo, saci pererê, macaco; se fosse filho de santo, era o macumbeiro, feiticeiro e todos tinham medo; se aparecesse algum colega com piolho, com certeza tinha vindo da cabeça de algum negrinho da escola; se sumisse algo na sala, era um neguinho o furtador. E assim, desde a infância, Lala, soube que há uma dolorosa desigualdade neste país. Para ela, nunca foi fácil ter acesso ao que há de melhor, e ainda carrega consigo os desafios de ser mulher e negra em uma sociedade elitista, desigual, racista, machista e em que, se contar a história de luta e sofrimento de um povo vítima de escravidão, humilhação, dor e entre outras coisas é tido como vitimismo ou um tal de mimimi.

Lala, diferentemente de muitas colegas negras, conseguiu bolsa em um cursinho pré-vestibular, dava aula de reforço para conseguir alguns trocadinhos no final do mês e estudou muito. Foi aprovada em seu segundo vestibular, ingressou em uma universidade e passou quase cinco anos saboreando conhecimentos e poucos como ela, mulher e negra, ocupavam um espaço acadêmico, mas ela seguia seus caminhos, sempre com sede em beber de novas fontes e de ser mais uma Maria a conquistar um espacinho porque ela não veio ao mundo para pregar vitimismo, ela é empoderada e sabe que o seu lugar é onde ela deseja estar, mesmo quando racistas dizem que não, ela e tantos negros, vão e fazem diferente.

Ocupar lugares, fazer com que a voz dos que foram silenciados pela opressão ecoe, levar conhecimentos e compartilhar a vida com seus alunos, embarcar em viagens, escrever novas estórias a cada dia, se tornar exemplo para a aluna que sempre desejou assumir o cabelo crespo. Lala continua sabendo que é a minoria nos espaços em que frequenta, que seu estilo não é considerado padrão de beleza para muitos, que o racismo é massacrante e ela ainda sente as dores do preconceito. Já riram de seu cabelo, ela escuta que cotas raciais comprova a inferioridade do negro e que os mesmos são sensacionais – na cozinha ou no samba, mas quem profere isso com tamanha maledicência, não sabe, ou melhor, não quer assumir que o negro é sensacional em qualquer cargo que ocupe.

Apesar de viver em um mundo cruel, com oportunidades para poucos e dor para muitos.  Um lugar em que se classifica o valor das pessoas através do padrão financeiro e étnico, Lala é mais uma mulher guerreira que mostra a cada amanhecer que não veio para ser coadjuvante de uma história, ela sabe quem é, de onde veio e assim, como seus irmãos negros, deseja que as oportunidades sejam iguais e principalmente, que o respeito impere. Ela não vive esse tal de vitimismo, gosta de sambar, de viajar e não foge de uma discussão porque entende que diante de tamanha exclusão, intolerância, machismo – não se deve calar.

Suerlange Ferraz

mo

Entre Palavras e Sentimentos: Morrinhos, o lugar que eu tanto gosto

23/8/2017 4h34

moLembro-me da primeira vez que eu fui a Morrinhos, acredito que eu tinha quinze ou dezesseis anos e, a partir daquele momento, um elo de carinho foi criado por este lugar.

Hoje é mais um domingo do mês de agosto e a convite de uma amiga fui passar a tarde em Morrinhos. Apesar dos poucos minutos de viagem, é possível admirar a vegetação, avistar um lindo pôr do sol.

Na entrada do povoado, avisto grupos de moradores sentados em suas calçadas compartilhando um pouco da vida, e outros, solitários, devem estar esperando o tempo passar ou observando o transitar dos veículos. Algumas crianças brincam de esconde-esconde próximo à escola e, de forma tão serena, ouço o canto de um pássaro.

Achei estranho seu Jó não está na janela de sua casa, ele que tudo observa e sempre tem bons “causos” para me contar. Se dependesse dele, eu passaria longas tardes ouvindo suas inúmeras histórias. Afinal, o que não falta em Morrinhos são pessoas que tem estórias para contar.

No trajeto até meu destino, minha amiga avista uma plaquinha na qual se dizia: “aqui tem muda de maracujá”, e lá vamos nós, visitar o local. Um senhor simpático nos recepciona e começa a apresentar as mudinhas das plantas. O quintal dele tinha cheiro bom de terra molhada e eu me sentei em um degrau e pus-me a observar as vendas, e da porta da cozinha avistava algumas joaninhas migrando de folhas e um rio era o pano de fundo. A natureza me acalmava e o pensamento fluía. A simplicidade do senhor e sua ternura com a terra, uma imagem bonita de se ver.

Após as compras, fomos embora e, ao atravessar a rua, o que eu avisto é uma mangueira e uma pitangueira. Fazia muitos anos que eu não via um pé de pitanga carregado e fiquei feliz. Ao andar por uma rua pequenina, avistei casinhas simples e as cercas as protegiam. As madeiras do cercado eram decoradas com flores. Minha felicidade cresceu ao ver a barragem, o nível de água aumentou e vê-la cheia novamente enche os olhos de alegria.

O anoitecer chegou, estava admirando um coqueiro gigante e, ao mesmo tempo, contemplando o céu estrelado, que hoje estava extremamente lindo. Com aquele cenário me recordei de quantos momentos felizes passei em Morrinhos. Já acompanhei o reisado de Seu Antenor, as procissões e novenários regidos pelas ladainhas de Santo Antônio e um grupo, mesmo que pequeno, de um povo detentor de uma fé duradoura. Veio-me a recordação de algumas figuras folclóricas deste lugar.

Trabalhei durante dois anos no vilarejo e, enquanto eu esperava o ônibus chegar, sentada em um banquinho em frente à Mercearia Leite, eu me colocava a observar o cotidiano das pessoas. Recordo-me de Dona Vita, uma senhora que deve ter em torno de 100 anos e sempre a via transitando pela comunidade; Biro-Biro, com seu saco que parecia ter o mundo todo dentro dele; tinha um senhor de cabelos e barbas longos e que desbravava a Av. Ilhéus em sua bicicleta. Um grupo de rezadeiras ainda sobrevive com seus ramos e cantorias; meninos se penduravam sob carros pipas e era frequente me deparar com as lavadeiras e suas trouxas de roupas sob suas cabeças em direção ao rio. Quantos sustos eu levei ao ouvir o barulho do sino da igreja, é porque quando esse ritual acontecia era para anunciar a morte de alguém.

Esta terra não é apenas um distrito que possui uma rua, vai além disso. É um lugar de gente talentosa, de pessoas sofridas também. Andando por ali, é possível encontrar fazendas, mercearias, posto de saúde, casas modernas, casebres e casinhas rústicas e tão acolhedoras. Do assentamento, uma vista linda; na Igreja, a sacralidade junta-se com a simplicidade de um povo que ora em devoção a Santo Antônio; nos bares, o lazer de muitos; no campo de futebol, descontração para outros; bonitas paisagens é o que não falta para os amantes do ciclismo e para quem só quer ver o dia passar, os banquinhos da igreja os aguardam.

De Morrinhos, ganhei alguns amigos, alunos, professora, colegas, flores, frutos, contos, crônicas e muitas lembranças. Deste lugar, sem graça para alguns, eu encontro calmaria para os meus dias agitados. Das pessoas simples, uma bagagem de aprendizado. Um lugar que eu gosto e me permite usufruir os bons ventos, sentir o gosto de terra molhada e a alegria de encontrar pitangas em uma calçada.

Por ali vivem sonhadores, universitários, mestres, lenhador, agricultor, gente que vê um mundo a partir de suas pequenas janelas e, outros, que desacreditados estão e vivem por viver. O que é negatividade eu deixo o vento carregar, e prefiro ficar com o que é mais belo de Morrinhos e sei que, quando o fardo pesar, é para lá que eu vou porque o céu estrelado e o luar são mais bonitos do que os da cidade.

Suerlange Ferraz

mandacaru

Entre palavras e sentimentos: Florescendo

20/8/2017 11h10

mandacaruNeste tempo de caos é necessário florescer. Pouco importa se floresça em forma de rosa ou mandacaru.

Nos dias escassos de chuva, por muitas vezes, o que umedece o chão são as lágrimas de tristeza. Quão triste tenho ficado com a onda de manifestações a favor de tudo que já dilacerou a humanidade.

Ainda me custa a entender o que leva as pessoas a defenderem o retorno de uma ditadura militar, exaltar corruptos, cultuar neonazistas, acreditar com fidelidade que o machismo não mata, que o preconceito é algo banal de quem gosta de pregar o vitimismo, e que as cotas são defendidas por pessoas que são intelectualmente inferiores aos pardos e brancos. E quando alguém tenta desconstruir esses pensamentos, recebe o rótulo de feminista vulgar, defensor de partidos políticos ou alguém que desejar fazer lavagem cerebral em seus alunos e tantos outros adjetivos.

Nando Reis tem razão, quando diz que o mundo anda ao contrário e ninguém reparou. Não que eu pense que a humanidade deva comungar dos mesmos pensamentos que eu, mas pela forma nojenta como os homens têm vivido. Pensar diferente é liberdade, pregar ódio é crueldade.

Florescer em meio ao abismo que os dias nos apresentam exige raízes consistentes e sabedoria para saber lidar com o ódio que vomitam sobre nós a todo instante. Lutar com unhas, dentes, livros, conhecimentos, discursos, ovos, tomates (apesar de achar um desperdício jogar alimentos em políticos, ou melhor, corruptos engravatados).

Sou professora de História, tenho tentado ao máximo não absorver a negatividade oriunda de alguns educandos. Como dói ver uma geração que se deixa ser influenciada por figuras tão boçais. Pegam uma informação sensacionalista e pregam como verdade absoluta. Jovens que não aprenderam a fazer reflexões sadias e esquecem de pensar no que é bom para toda uma coletividade. Ainda me alegro quando vejo que a geração ainda gera frutos que analisam, criticam, debatem, leem e me fazem acreditar que nem tudo está arruinado neste país.

Talvez eu não saberei explicar aos meus alunos, daqui a alguns anos, o que ocorreu nos últimos dois anos, pois tudo muda o tempo todo. Também não sei se existirá a disciplina de História, porque para os governantes é desnecessário conhecer a história de uma nação, e pessoas questionadoras são consideradas um carma.

Em meio à tempestade que estagnou sob nossas cabeças, a apatia que rouba a coragem de prosseguir, o medo no que ainda está por vir, milhares de motivos para temer – eu sigo! A passos curtos em alguns momentos, e em outros, na velocidade da luz. Têm dias que o desânimo me captura e a positividade desaparece, e são nesses momentos que eu me lembro do quão é necessário resistir aos padrões e as mordaças que desejam colocar naqueles que se indignam contra a miséria social e os valores deturpados que o povo brasileiro internaliza apenas para satisfazer conveniências.

Não tenho jeito de rosa, tenho aptidão para ser um mandacaru. Sugo da mãe terra o essencial para sobreviver, tenho espinhos, e quando pensam que minhas forças estão sucumbindo, eu floresço. Florescer a cada manhã, mesmo que a água que me regue seja as salgadas lágrimas de angústia. Florescer em meio à multidão e caminhar com uma canção na mente e a convicção de que a travessia deixará cicatrizes, mas é melhor conviver com a marca de uma luta do que com as marcas de uma vida pacífica e sem enredo.

Suerlange Ferraz

ampulheta

Entre palavras e sentimentos: Os dias

03/8/2017 11h50

ampulhetaVoltava do trabalho e parei defronte a uma casa para esperar a chuva passar. Era tardezinha e fiquei por ali por mais ou menos quinze minutos. Enquanto a chuva caía, eu pensava como a vida é um sopro que pode passar velozmente ou a passos curtos. Assim a morte chega, como uma visita indesejada, levando com ela toda uma expectativa de alegrias, desejos e pretensões.

Pus-me a pensar em tantas coisas que não fiz e pelas incontáveis desculpas patéticas que já dei para não ir a algum lugar; dos medos que já roubaram o desejo de aventuras; dos nãos que a vida me deu; do conformismo; dos amigos que já não vejo; das palavras que não foram ditas na hora exata, enfim, me veio uma chuva de recordações.

Com os pingos d’água que lavavam a rua, recordei-me do tempo em que a felicidade custava um doce do Zorro, uma rosquinha, banana frita com um punhado de açúcar e canela, um pedaço de manga verde com sal ou brincar na chuva.

 Muitos chinelos se foram, as mini enxurradas carregara-os. Quantas quedas da goiabeira, e no joelho, marcas eternas; na memória, doces lembranças. Um tempo em que a única preocupação era tirar boas notas e o medo era dos seres horripilantes que vagavam pela rua durante a madrugada, principalmente do fantasma do apito, que nada mais era do que um guarda que vigiava a rua.

Quando nos tornamos adultos, as responsabilidades e os medos são outros. A competição não é mais saber quem ganhou o “stops”, ou venceu um cabo de aço, ou chegou mais vezes ao céu da amarelinha. Hoje, os desafios são mais densos, e o que me rouba o sono, não é a prova de matemática, mas as inquietações provocadas pela intolerância cotidiana. Já passei horas contando os carneirinhos para o danado do sono chegar. Demorava um pouquinho, mas chegava. No presente, a contagem parou de funcionar, acho que as aflições não me permitem fazê-la.

O tempo vai voando e as ambições também. Você vive sendo cobrado, procura perfeições, sofre com tantas formas de preconceito, sente suas dores e as dores dos outros, sonha, faz uma montanha de planos, junta moedas na latinha ou no porquinho, planeja fazer inúmeras viagens, pois o futuro é a prioridade. Sempre achamos que temos muito tempo, mas nem sempre é assim, porque um dia um sopro vem e te leva.

Por que perdemos a ternura infantil? Por que complicamos a vida? Por que é mais cômodo ser uma “Maria vai com as outras” do que defender suas ideologias? Por que os dias estão tão cinzas e pesadelos estão surgindo? Por que o país parou diante de um caos? Vivo em um mundo de infinitos porquês e nem sempre encontro respostas para as minhas inquietações.

Os dias passam e passamos correndo por alguém que necessitava de pelo menos um bom dia. O egoísmo rouba a sensibilidade, compaixão e afeto parecem palavras excluídas da vida de tantos. No ciclo de competições, é ensinado que o melhor é quem ocupa os melhores cargos, recebem salários magníficos e é superior. Nunca almejei ter fortunas, sempre quis ter um salário que desse para comprar o que eu gosto, viajar e ser  feliz com aquilo que o meu trabalho me proporcionar. Um aluno me disse que meu pensamento é pobre e eu ri, porque carrego comigo a certeza de que possuo mais riquezas do que uma grande parcela da humanidade, e que ter um teto, uma cama e cobertores, para muitos, já é algo valioso.

A chuva passou e volto para meu lar. Trago a certeza de que não vivo da melhor forma, que deixo a vida passar por mim ao invés de eu passar por ela. Que longas conversas, abraços calorosos, pensamentos carregados de otimismo, sonhos, lutas, aconchego, versos, boas músicas, floresçam em minha existência.

Vivamos! Deste atravessar de dias,devemos deixar boas lembranças, e enquanto estivermos por aqui, que sejamos sol ou lua para alumiar o caminhar de alguém. Que possamos ser gente que faz bem ter por perto e saibamos distribuir carinho, afeto e amizade. Apesar das tempestades, grata sou pelos tantos pores do sol que já passaram por mim e pelas estrelas que vigiaram meu sono.

Com a certeza de que nada é em vão, seguirei acreditando que sou mais um barquinho procurando um destino neste mundo, sendo soprado pelos ventos que me levarão a um porto seguro.

Suerlange Ferraz

888

Entre palavras e sentimentos: Amizade

20/7/2017 4h26

888Certo ditado diz que amizade é um amor que nunca acaba, creio que seja uma das maiores verdades. Como pode o amor morrer? Ele não morre, é eterno em nós. A amizade nasce da cumplicidade, dos olhares, carinhos, dos risos, das dificuldades… E, sobretudo, da compreensão.

Temos poucos amigos porque é difícil encontrar pessoas que conheçam todos os nossos defeitos e ainda continua a nos amar. Amigos são seres especiais, sabem do que precisamos sem precisar perguntar nada. É um amor que sobrevive às maiores distâncias, sofre com a ausência física, mas sabe que na memória o amigo sempre estará.

Tem amigo que sofre por pensar que está perdendo espaço na vida do outro. Chora e sofre com isso. Mas esquece que a pessoa poderá ter milhares de amizades, mas cada um sempre será e terá um lugar especial no coração de quem amamos.

Nenhum amigo deveria ficar separado fisicamente porque a saudade machuca o coração, transforma recordações em lágrimas. Infelizmente muitos desejos não estão ao nosso alcance e o que dá ânimo é sabe que verdadeiras amizades são ligadas por um elo infinito.

Por muitas vezes, os amigos são incompreensíveis, não conseguem enxergar as situações com outro olhar, motivos de desentendimento e tristeza. Nesses casos, uma boa conversa, doses de amor e ter sensibilidade para perdoar e pedir perdão. Erramos por amor também.

É impossível pensar a vida sem a presença de vocês. É bom saber que em meio a bilhões de pessoas nos conhecemos, trocamos afetos e dividimos um sentimento tão sublime: o amor. Se eu tiver mil vidas, peço a Deus, que Ele me mande no mesmo ciclo de amizade. Não quero ter uma quantidade significativa de amigos, quero ter a qualidade de amigos.

Ter amigo é evoluir, é amadurecer. É saber que quando você precisa de interseção, alguém estará orando por ti, anjos sem asas. Ser amigo é cuidar do outro, mesmo que seja pelo simples fato de falar um oi. É ter a certeza que a cada amanhecer, o vento trará a recordação de que pessoas especiais, que não moram no mesmo teto e que não se vêem diariamente, ama você e sente saudade.

As horas correm e não temos o poder de saber quantas horas ainda teremos para respirar neste universo. Então não perca tempo, permita que o calor emitido pela positividade destrua o gelo existente entre amigos, se não sabe falar eu Amo-te, ria, seja carinhoso porque há varias formas de expressar o amor. Deixemos as formulas de amor de lado, não vamos amar na teoria. Amor é no labutar diário.

Amigo também fere. Isso acontece porque somos humanos limitados. Que o ferimento de um momento não torne uma cicatriz para eternidade. Sempre que você for ferido por quem ama, coloque em uma balança os tudo o que seu amigo fez por você, os momentos compartilhados, a mão estendida, o olhar confortador e os vacilos. O que vai pesar mais, os erros de um momento ou a história de uma vida? Que a balança sempre seja favorável a reconciliação.

Agradeço ao Criador, mesmo sabendo dos meus defeitos, foi e tem sido tão generoso comigo, permitindo-me viver ao lado de seres iluminados, que dão mais alegria aos meus dias, que sabendo das minhas limitações, conseguem ser meus amigos. Que bom que vocês cruzaram minha vida. Melhor ainda é saber que os tenho como amigos.

Que os nossos ciclos de amizade continuem florescendo, sendo regado com os mais belos sentimentos, podando as ervas daninhas que tentam se apoderar das raízes e colhendo bons frutos.

Suerlange Ferraz

ppp

Entre Palavras e Sentimentos: Os dias frios de julho

07/7/2017 3h02
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Daqui do meu quarto ouço o barulho do vento e o latido de alguns cachorros. É mais uma madrugada fria e a baixa temperatura obrigou-me a levantar, ir até o guarda-roupa e procurar um cobertor. Estava embrulhada por duas cobertas, e ainda sentia frio. 
 Não gosto dos dias frios, prefiro o calorzão, o colorido da primavera, as roupas leves e tudo de bom que o calor pode oferecer. Mas, como não existe apenas uma estação, o jeito é aprender a sobreviver às baixas temperaturas. Li uma matéria que dizia que durante os dias frios, as pessoas tendem a ficarem deprimidas. Eu concordo porque experimento isso. É uma indisposição, falta ânimo e até a preguiça fica mais acentuada. É um período em que o sono é mais intenso e eu me transformo em um bicho preguiça. 
  O inverno é muito doloroso  para os moradores de rua ou os menos favorecidos. Eu que sinto frio, mesmo estando super agasalhada, fico imaginando as pessoas que tem poucas ou talvez nenhuma roupa adequada para o inverno. As baixas temperaturas são cruéis para quem não tem boas condições financeiras. Sinto muito pelas inúmeros momentos que entro em uma sala de aula, usando tênis, cachecol, super protegida e vejo que uma boa parte dos alunos estão usando chinelos, que por muitas vezes, é maior ou menor do que seus pés, ou vestimentas com furos.
 
Para quem não tem dinheiro, o inverno é uma estação cruel porque as “roupas de frio” não são baratas. É um período em que as pessoas adoecem com frequência. É tempo em que a asma, bronquite, as ites ( rinite e sinusite) chegam super empoderadas e haja medicamento para controlar essas doenças. Mas, nem sempre os pobres detêm poder aquisitivo para comprar seus medicamentos e os estes costumam faltar em postos de saúde. Creio que campanhas para arrecadar alimentos ou roupas devem durar o ano todo. É necessário voltar nossos olhos para quem não tem voz ativa e vive a precariedade dos silenciados numa sociedade egoísta. E quando se fala em campanha social, sempre surge alguém para proclamar ” Eu não tenho obrigação de ajudar porque a pobreza é problema do Estado”, “não trabalha porque não quer” ou “Eu não mando arrumar esse tanto de filho para receber programa social. O problema não é meu”, quem fala esse tipo de coisa, acredita que a pessoa vive miserável porque é acomodado, mas, eu penso que não é bem por aí. 
 Em minha última viagem, participei de um almoço e um dos assuntos era sobre o ter coisas desnecessárias na vida. São sentimentos que sobram e faz um mal danado, e aquelas roupinhas que não se usa e estão superlotando o guarda-roupa, centenas de brinquedos que são esquecidos pelos cantos da sala, e tantas outras coisas  inúteis que ocupam espaços desnecessários no viver de alguém. 
 Então, queridos, faça uma reflexão e veja o que não te serve mais e faça um gesto nobre, ajude alguém a suportar os dias frios ou calorentos. Olhe nas suas gavetas, deve ter algo que não serve mais em ti, mas será muito útil a alguém. Separe um alimento, uma fruta e um pãozinho e doe, mas sem estardalhaço porque a rede social não precisa ficar sabendo de sua solidariedade.
 O  frio que me castiga é o mesmo que adoece àquele que não tem cobertores quentinhos ou um bom colchão. Não seja mesquinho, aqueça alguém.
Suerlange Ferraz
Poções

Entre Palavras e Sentimentos: Poções, a minha, ou melhor, a nossa terra!

27/6/2017 4h39

PoçõesMeu lugarejo está situado pelas bandas do sudoeste baiano. Um lugar simples, aconchegante, que não diferente de outras localidades passa por tantos problemas, mas nunca deixará de ser amada por seus filhos.

A minha terra tem gente que anda descalça pelas ruelas, que enfrenta os dissabores com um sorriso largo e com a fé arrebatadora. Nas portas de muitas casas, os vizinhos se reúnem para prosearem. Nos bares espalhados pelos bairros, os casos acompanhados de uma cachacinha invadem a madrugada. E na praça, todo dia é momento para contemplar os bons encontros.

 Na praça encontramos o acarajé da Cristina, a tapioca, churros, o pipoqueiro, o churrasquinho, a Voz do Gaivota, o mudinho e suas estripulias e muita história. Passei longas tardes entre amigos, sentada na escadaria do Banco do Brasil, era prazeroso compartilhar a vida com os companheiros da escola. A Voz do Gaivota era a responsável pela trilha sonora e seu Tavinho ou Gerônimo, pelas pipocas.

Quando estou viajando, sinto saudades do pãozinho caseiro da padaria que fica próximo a minha casa ou do pão de abóbora ou aipim de dona Nilza. Engraçado que o sabor ou o cheiro fica impregnado na memória.

Por falar em sabor, me veio a lembrança Miguel, rapazinho magrelo e baixo que eu encontrava durante as tardes na praça vendendo as deliciosas cocadas de dona Carminha. Minha infância e adolescência foram marcadas por muitos sabores e a cocadinha traz saborosas recordações.

Por aqui, a fé é tão presente. É um terço, um ramo, uma prece, é a água benta que cai sobre a cabeça dos fiéis, a água de cheiro que lava a praça na marcha do Dendê – é a fé em suas inúmeras representatividades. Das rezas, carurus, festa de Pentecostes, Marcha para Jesus, semana espírita… E de um tanto de manifestações religiosas leva a crer que poçõense é um povo de fé. Meu lugar não é industrializado, não tem universidades, passa por crise hídrica, tem altas taxas de desemprego e mesmo assim, eu, como muitos, continuo sentindo um bem querer danado pela terra do Divino.

Durante os encontros com os amigos, costumo dizer que o povo de Poções é ousado. É a ousadia que vem de ousar porque numa cidade em que as perspectivas de emprego são tão pequeninas, existem muitas criaturas que ousam a encarar os desafios de viajarem diariamente, em média quatro a cinco anos para ter acesso a Universidade. O que falar daqueles que romperam fronteiras e estão por aí, seja num mestrado, doutorado, escrevendo, cantando, nas construções, na docência acadêmica, nos consultórios médicos ou de advocacia, na sala de aula… Em alguma cidade por aí, tem algum poçõense fazendo história.

Ah, você é baiana -É de Salvador? É a pergunta mais frequente quando estou viajando. Sempre respondia que a Bahia é maior do que a capital e que existem centenas de cidades e uma delas é Poções. Adoro falar para os novos conhecidos sobre a fase majestosa do time do Poções. Lógico que não deixo de falar sobre a Festa do Divino, do reisado, de Morrinhos, da feira, enfim, me empolgo falando da minha cidade. A partir de então, os coleguinhas aprendem que além de Salvador, existe também Poções, que fica localizada próximo Vitória da Conquista, popularmente conhecida como Suíça baiana.

Em cada esquina da cidade, uma história. A cada filho da terra, o desejo de uma cidade mais cuidada e com mais oportunidades. A cada aniversário, alegria em ter nascido por aqui. Querida Poções, terra amada! Mais um aniversário e tantas lembranças tomam conta dos filhos desta terra e daqueles que a escolheram como lugar para morar. Desejo que a cidade prospere, que a fé prevaleça e que os sonhos sobrevivam. Feliz idade nova, terrinha amada!

Suerlange Ferraz

007

Entre Palavras e Sentimentos: Feira; colorido, multidão, cheiros e encontros

20/6/2017 11h20

007De madrugada, as barracas começam a ser montadas. As caixas são abertas e os melhores produtos são selecionados e expostos para atrair os consumidores. Aos poucos, o trânsito humano começa, e as pessoas são seduzidas pela qualidade, bons preços e a boa e eficaz propaganda.

As cores intensas da couve, o perfume das rosas na barraca de dona Ana, as bananas sem carbureto que seu Jaime vende, o vermelho intenso da “talhada” da melancia que enche os olhos e faz a boca salivar. E o que dizer do requeijão que brilha? Por um instante, esqueço as gordurinhas do mal que existem nele e me rendo à tentação de saboreá-lo. Cada barraca uma peculiaridade. Cada comerciante uma figura marcante nas manhãs de sábado.

As pessoas dividem espaços com as barracas, carrinhos de picolé, pamonhas, mingaus e lonas estendidas no caminho. Andar pela feira é dividir pequenos espaços com uma porção de gente, tentando se esquivar a todo momento das sacolas, embornais e se proteger dos pisões.

Os moradores da zona rural acordam com o canto do galo. Alguns caminham um bocadinho para conseguir um transporte e realizar suas compras, outros, vêm vender seus produtos. O homem do campo costuma relatar a falta que a chuva faz no “sertão”, ou contam, com muita satisfação, que em sua região choveu até bastante e deu para juntar água no tanque.

É na feira que encontramos os “nutricionistas” que montam umas receitas em fração de segundos. A “rúcula boa para a visão”, afirma seu Antônio. Remédio para matar verme, eliminar o cansaço, o pano branco, fadiga, osteoporose… Você encontra na garrafada do elixir Leão do Norte, anunciava um senhor baixo, que aparentava ter uns setenta anos.

Dentro do mercadão, farinha, biscoitos, pubas fresquinhas, e o feijão ocupam cada metro quadrado. Açougues, restaurantes, barracas que vendem roupas utensílios, domésticos e especiarias complementam o Mercado Municipal de Poções. Ah! Incensos e material para banho é na barraca de seu Edson, e a poucos metros, encontra-se cestas, cofrinhos no formato de porco e botijão. Ainda é possível deparar com algum senhor comprando pedaço de fumo para fazer seus cigarrinhos.

Feira é contemplação do sagrado produzido pela mãe terra. É local de encontro dos meninos carregadores de compras e sonhos, dos meteorologistas e matemáticos, dos contadores de prosas, dos professores e dos alunos que vêm da zona rural e passam a manhã batalhando pelo sustento. As dificuldades não impedem as manifestações de generosidade e a todo momento somos agraciados com algumas bananas a mais, ou uns dois ou três ovos caipira de presente.

Como é delicioso fazer comprar ao ar livre, tocar nos alimentos e cheirá-los também. Conversar um pouco com os feirantes amigos e andar a passos lentos ao som emitido pelas caixinhas de som que estão distribuídas pela feira. Ainda consigo achar graça das pessoas que comem um punhado de farinha ou experimentam vários biscoitos antes de adquirir o produto. Os mais idosos arrancam tirinhas de bacalhau para sentir a qualidade ao comer, o que acho muito estranho.

Impossível não lembrar as figuras que são rotuladas como os “invisíveis da sociedade”. São aquelas pessoas que juntam uma graninha durante a semana, vão à feira, encontram um bar aberto, bebem excessivamente e posteriormente ficam caídos em calçadas, alguns, machucados. A feira reflete a divisão tão cruel de renda. Enquanto muitos lotam seus carrinhos de compras, outros tantos esperam o término da feira para catar a sobra dos legumes e verduras.

A feira de tantas contradições. Lugar sagrado, porque tudo que envolve alimento possui uma sacralidade. Templo de alegria para quem faz boas vendas e para os que conseguiram encontrar o que desejavam, principalmente, se o precinho for camarada. Depois das compras feitas, o melhor a fazer é tomar um caldo de cana bem gelado, comer um pastelzinho, sentar em um banco e ficar a observar minuciosamente a grandiosidade daquele momento.

Suerlange Ferraz