Entre palavras e sentimentos

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Entre Palavras e Sentimentos: A Pequena Juju

16/3/2017 10h35

juToca o sinal, as crianças saem correndo ao encontro de seus pais, e Juju, com lágrimas nos olhos, cabeça baixa e sentindo-se triste, caminhava a passos curtos até o portão da escola.

A menina, ao ver a mãe, corre em sua direção e a abraça. Era um abraço forte e a pequena não escondia a tristeza que sentia. Ao chegar em casa, a garotinha foi questionada pela mãe sobre a tristeza aparente e respondeu:

– Não aconteceu nada, mamãe! Só estou com a cabeça dolorida!

A menina almoçou e foi direto para o seu quarto. Deitou-se para descansar, mas as frases ditas por Lipe, seu colega, não saiam da sua cabecinha. Fazia dias que Lipe a tratava diferente por ela ser a única negra da turma, e hoje ele disse coisas que abalou Juju.

  • Que nariz estranho!
  • Seu cabelo é tão feio!
  • Por que você é tão preta, Juju?
  • Você é estranha!

A pequena Juju tem apenas sete aninhos e não sabe lidar com o preconceito. Afinal, uma boa parcela das crianças que sofrem com o racismo não consegue se defender, porque diante das palavras doídas, a tristeza é mais visível.

Lipe é uma criança mimada. Adora apelidar os colegas, a mãe sempre o defende de seus erros e ele não foi ensinado a respeitar as diferenças. O menino ridiculariza os colegas que apresentam dificuldades na aprendizagem e mesmo que a professora lhe chame a atenção, ele e a mãe atropelam as regras e agem como se tudo fosse normal.

A mãe da garota é dona de um ateliê. Suzanita tem um estilo hippie e o cabelo volumoso é a sua marca registrada. Uma mãe presente e amorosa, que ao ver a tristeza da menina sabia que o problema era maior do que uma mera dor de cabeça.

Suzanita resolveu ir ao quarto da pequena, abriu a porta e viu Juju com seus pequenos olhos vermelhos, devido ao choro. A mãe pegou a filha e a colocou em seu colo, fez um cafuné e novamente quis saber o que houve. A menina resolveu desabafar e contou o que Lipe havia lhe dito.

Suzanita começou a tocar no cabelo de Juju, brincava com aqueles cachinhos e dizia que o cabelo da filha era lindo. Tocava no nariz e afirmava que existia um monte de narizes diferentes. Assim como o tamanho das pessoas não são iguais; nariz, orelha, boca, olhos também são diferentes.

– Nossa cor é linda, filha! Afirmava a mãe.

– Lipe não é igual a você, porque todos tem características peculiares, meu amor! Seu coleguinha não é superior a ninguém.

Juju dizia que não queria voltar à escola, e Suzanita disse que ela voltaria e não aceitaria mais as ofensas do colega.

– Juju, o racismo é uma forma estúpida de inferiorizar alguém. Mas devemos lutar contra essas atitudes. Você é pequena e mesmo assim terá que enfrentar as maldades de algumas pessoas.

– Venha cá! Olhe-se nesse espelho e veja a criatura linda que você é. Sim, somos diferentes em tamanho, sentimentos e beleza. O mundo é habitado por criaturas diferenciadas, minha pequena! Prometa para a mamãe que toda vez que seu colega lhe perturbar você dirá a ele que és única e que todos somos diferentes. Dirá também que tens orgulho da sua cor e desse cabelo lindo.

A menina jurou para a mãe que faria o que ela pediu, e quando Lipe tentou agredi-la com palavras preconceituosas, ela lembrava da conversa que teve com a mãe e repetia para o colega as frases que havia escutado. Ele começou a olhar em volta e percebeu que Juju estava certa. Parou de ofendê-la e a partir desse dia tornaram-se grandes amigos.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: Quem é de casa, chega e vai direto para a cozinha

05/3/2017 8h17
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Foto: Cozinha lindíssima e aconchegante de Cristiane Campos

Eu sei o quão íntima sou de alguém, a partir do momento em que sou convidada a adentrar em sua cozinha. Confesso que fico imensamente feliz ao conhecer esse espaço da casa de um colega ou amigo.

É na cozinha que a conversa flui. Neste lugar, os contos e as recordações se tornam marcantes. É ao redor da mesa que saboreamos o que nos é ofertado, além da companhia de uma ou muitas pessoas queridas. No mesmo espaço, a minha mãe acompanha a “Ave Maria” ou reza do terço transmitida por uma rádio.

Da janela da minha cozinha, posso ver as jabutis brincando em meio aos pingos da chuva, a vida florescendo através das árvores frutíferas e aproveito o tempo para dengar meus cachorros.

Na zona rural é raro encontrar uma cozinha que não tenha fogão a lenha. Ao calor das brasas, famílias relatam os fatos e fardos do dia enquanto tomam um café quentinho e se reúnem ao redor da mesa.

É na cozinha que a família se junta para dividir a refeição e um pouco da vida. É no último cômodo da casa que a mãe tempera a comida com doses de afeto.

Na cozinha, os amigos chegam sem cerimônia. Um chá, um café, uma sopa, bolos, biscoitos, cuscuz, assados, bebidas e um monte de sonhos; discussões, desabafos, comunhão de ideias sobre a mesa. “Nada de notícia ruim por aqui”, dizia a mãe de uma amiga que não permite negatividade sobre sua cozinha. Ela está certa! Segundo crença de uma tribo africana, o alimento é sagrado e nenhuma palavra negativa pode pairar onde ele estiver. Neste espaço sagrado, só quem possui boas energias deve pisar.

É na cozinha de tanta gente que eu sou feliz. É na minha cozinha que recebo tanta gente que já não posso chamar de conhecidos, pois já são de casa. Todos estes elementos juntos alegram o ambiente e enchem meu lar de harmonia.

Que as cozinhas possam ser um dos melhores locais de encontro. Que neste lugar, a felicidade supere as angústias; que nunca faltem discussões sadias e boas gargalhadas.

Que pelas cozinhas que passei as mesas continuem fartas, e a bonança se expanda para o lar de todos. Sei que enquanto escrevo, algum ser humano agoniza por causa da fome. É muito triste saber que muitos desejam ter um pedaço de pão, dignidade, um lar e uma mesa cheia, mas, infelizmente, a exclusão não permite, e o egoísmo de muitos não deixa uma bolacha chegar à boca de uma criança.

Pelas cozinhas que andei, gratidão aos donos. Por cada cheiro, cores dos objetos, formato da mesa, alegria do anfitrião, presença dos animais de estimação e tantos outros elementos. A minha imaginação agradece.

Suerlange Ferraz

solidao00

Entre Palavras e Sentimentos: Para que tanto ódio?

23/2/2017 11h23

solidaoDa cozinha, olho minhas cachorrinhas brigarem, foi uma coisa rápida e em instantes elas já estão de boa. Uma deitou sobre a barriga da outra e dormiram. Diante daquela cena, fiquei pensando no ódio que os homens carregam e fazem questão de exibir nas redes sociais. Juram vingança por pequenos desentendimentos, destilam veneno gratuitamente, torcem pela morte de alguém ou matam pobres animais indefesos.

Nos últimos dias, muito tenho lido sobre este sentimento que adoece a sociedade, pois precisava compreender o que levou algumas pessoas a comemorarem a morte de uma mulher, apenas porque odeiam o viúvo e o partido no qual ele milita. Observar tamanha manifestação de odiosidade nas redes sociais foi estranho e me causou medo. Bateu uma tristeza por saber que minhas cachorras, que são consideradas animais irracionais, brigam e se perdoam, e os tidos “seres racionais”, ao invés de amor e perdão, estão tentando ensinar a conjugar o verbo odiar em várias esferas.

A sociedade está doente? Creio que sim. Vejo crianças que retribuem a ofensa do colega com tapas e ainda dizem “meu pai disse que é assim, se bateu ou xingou, eu tenho que fazer a mesma coisa”. Um cachorro que está deitado em frente a um comércio é surrado e tem uma de suas patinhas quebradas; um ex-aluno foi espancado porque é homossexual e um dos vizinhos acha que o jovem é doente e merecia uma surra, e assim foi feito. O rapaz teve três dentes quebrados por causa da intolerância; Ana foi espancada pelo marido e algumas vizinhas cochichavam que ela mereceu porque quando o esposo chegou em casa, a mulher estava conversando com o leiteiro e vestida com um “toco” de roupa e isso não é coisa de mulher “direita”. Dona Dil comenta com a colega “Deus que me perdoe, mas quando alguém me diz que mora na periferia, misericórdia, morro de medo, praticamente todos são bandidos ou parentes de um”. Tanta gente é contra pena de morte, porque é adepto de uma religião, mas vai para o Facebook curtir ou postar frases fazendo apologia a tal prática. Os exemplos de hipocrisia e estupidez são tantos, que eu poderia passar horas relatando fatos observados no cotidiano.

Estamos vivendo uma era em que muitos têm discursos lindos e práticas horríveis, outros, são abomináveis tanto na teoria quanto na prática. Nossa sociedade passa por um processo de inversão de valores. Sinto que pessoas com bons sentimentos e atitudes nobres estão ficando escassas, ou preferem se omitir por medo das maldades. Os diálogos saudáveis e produtivos são raros, o bullying fere a alma e leva milhares ao suicídio, a religião virou um comércio para os muitos “profetas” do momento.

Tem sido difícil crer em uma humanidade melhor. É triste saber que fotos de pessoas doentes viram memes, e que apesar do avanço tecnocientífico pelo qual passa a humanidade, ainda nos deparamos com pessoas que avaliam alguém pela cor. Os “poderosos” viraram as costas para os miseráveis que vivem nas vielas das cidades. Um monte de desonestos que se tornaram políticos roubaram a esperança de muita gente em um futuro melhor nessa área. Parece que ser corrupto é um lindo adjetivo, e tantos dizem por aí “se eu fosse político roubaria igual a eles”. Poxa! O mundo ficou tão estranho e têm pessoas se esforçando para que ele piore.

Uma sociedade doente enfraquece os sonhos. O ódio adoece as pessoas, a falta de respeito torna-se guerra, a intolerância mata, a falta de boas discussões deixa o intelecto pobre, e quando privamos nosso corpo de bons sentimentos, ele morre aos poucos a cada amanhecer. Não deveríamos defender os bandidos que nos roubam todos os dias, devemos lutar por tantos direitos que estão nos tirando na calada da madrugada.

Para que tanto ódio? Essa doença tão mortal. Ando nostálgica e sinto saudades da compaixão, fé, solidariedade e acima de tudo, o respeito.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: Pedrinho, o picolé e o amor

29/1/2017 4h41

picOlha o picolé! Só custa R$1,00! Vai um aí? E entoando essas frases, Pedro passa manhã empurrando seu carrinho com picolés por algumas ruas do centro da cidade.

Pedrinho, como é chamado, tem onze anos, negro, baixinho, tagarela, mora em um bairro periférico da cidade e estuda a tarde. O menino desperta muito cedo. Todos os dias às 05h30min está de pé. Quando acorda não encontra mais a mãe em casa, porque ela já havia partido para o trabalho, mas sempre encontra o café fresquinho e bolachas, raras vezes tem pão sobre a mesa.

Dona Lourdes, a mãe de Pedrinho, tem mais quatros filhos. Guinho, o mais velho, faleceu aos 16 anos e se estivesse vivo já teria 25. Foi vítima de bala perdida enquanto entregava pizza em um bairro de São Paulo. Marta tem 23 anos e Ana 22 anos, ambas partiram rumo a capital paulista para tentarem uma vida melhor, a primeira trabalha em um escritório, e a segunda, na casa de um importante médico da cidade de Esmaltina. Seu Jeremias, esposo de Lourdes, saiu de casa quando Pedro tinha apenas dois anos, partiu para o sul do país atrás de trabalho e nunca mais voltou. A única coisa que enviou à família foi uma carta em que dizia ter encontrado uma companheira, estava bem e amava os filhos.

Com a dor do abandono, dona Lourdes via em seus filhos motivos para ter esperanças. Ela chorou durante anos pelo companheiro que se foi e todas as noites derrama lágrimas pela partida prematura do filho. Para garantir o sustento da família, ela pegava trouxas de roupa para lavar, dava faxina em casa, fazia cocadas para que suas filhas pudessem vender no portão da escola do bairro, catava algumas latinhas de alumínio em festas e faz mais de dois anos que trabalha na casa da família Amarilis.

A mãe de Pedro trabalha das 6:00 até às 15: 00 hs, de segunda à sexta e ganha R$ 850,00. Lava, passa, cozinha, faxina, limpa a casinha dos cinco cachorros da família e sempre está escondida nos últimos cômodos da casa. Faz alguns dias que ouviu a sogra de sua patroa dizer que, realmente o lugar de negro é na cozinha, ao comentar que seu sobrinho neto estava na fase de aderir à moda e resolveu afrontar a família ao namorar com uma pretinha do cabelo ruim. Lourdes se recolhia em pensamentos e recordava de quão humilhada foi ao sofrer preconceito racial na infância e adolescência. Quando seu marido foi embora, algumas vizinhas mexeriqueiras a apelidaram de a “neguinha que o marido não quis”.

Não existe um só dia em que ela não se preocupe com o filho. Tem medo que Pedro sofra com a exclusão do mundo e fosse infeliz. Pedrinho vende picolés para ajudar na renda familiar, tem dificuldade de aprendizagem e lê com muita dificuldade, mas sabe fazer cálculos, fato que o ajuda nas vendas. O garoto tem uma mega disposição para conversar durante as aulas. Descobriu estar apaixonado por uma colega cujo apelido é Cacau, mas ela o menospreza por causa de sua cor.

Esse negócio de amor platônico deixa o coração mais sensível e ferido quando a pessoa que queríamos que habitasse dentro dele o esnoba. Pedro sabe que Cacau não quer nem ao menos sua amizade, por ele ser pobre e negro, entretanto mesmo sendo rejeitado ele procurava ser gentil com a coleguinha. Foram incontáveis as vezes que Pedrinho gastava o pouco que ganhara em uma manhã exaustiva de vendas, para comprar doces para a menina que o encantava. Ela recebia o mimo e com ar de superioridade o agradecia.

Pedrinho têm olhos graúdos e um bom coração. Sabe que o amor por Cacau dificilmente seria correspondido, ele é zombado por causa de suas roupas que às vezes apresenta furinhos ou são remendadas. A menina rir das sandálias, maiores que os pés do colega, e o pobre garoto guarda as lágrimas para molhar seu travesseiro a noite; além de passar horas pensando se algum dia viveria um amor correspondido, mesmo sendo pobre e negro. Cacau destroçava aquele coração carente, não por não amá-lo, e sim por esnobá-lo por sua cor e condição social.

Pedrinho e Dona Lourdes, dois sobreviventes das dores que aparecem pelo destino. Uma batalhadora, o outro, um pequeno vendedor que nutre o sentimento por uma menina que o despreza. Uma mãe que sonha em ver pelo menos um de seus filhos com diploma, e o menino que deseja casar, ter dois filhos, ficar rico para ajudar os necessitados. Duas das tantas vítimas de preconceitos espalhados por aí. Afinal, ser da periferia e negro neste país é saber lidar com a labuta e buscar construir o seu espaço arduamente neste mundo tão desigual.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: Bye, bye 2016

31/12/2016 10h24

15820188_1385702758129623_1253633098_nUfa! Mais um ano se findando. Tenho a sensação de que o tempo tem corrido muito mais do que o normal, e ainda me lembro dos últimos minutos de 2015 e os primeiros instantes de 2016.

Creio que nenhum esotérico adivinhou que este ano seria tão tenso. Tragédias: aérea, terrestre e política – vivenciamos dias em que o povão continuou sendo colocado para escanteio, panelas bateram e quando era necessário que a voz da indignação ecoasse pelo país, o silencio tomou conta. Quando pensamos que todas as coisas negativas tinham acontecido, eis que surge algo para arrancar uma lágrima ou a tristeza de nós.

Neste país homofóbico, um senhor se preocupou em defender uma vítima que era espancada devido a sua orientação sexual e morreu. Seu Índio foi mais um brasileiro batalhador morto pela arrogância humana. O racismo e a intolerância religiosa continuaram fazendo vítimas e destruindo famílias. A violência rouba a paz de ir e vir tranquilamente pelas ruas das cidades. As tragédias no continente africano continuam invisíveis aos olhos do mundo. As guerras civis estão tirando do mapa cidades e pessoas. Ainda tem muita gente morrendo de fome, sede, dor e injustiça. Em 2016, muitos políticos escancararam suas facetas podres e perversas, fazendo questão de lembrar que o povo só serve para votar e nada mais. Um punhado de corruptos se reelegeram e outros tantos saíram ilesos de seus crimes.

Mas em meio a um ano conturbado, sempre teremos algum motivo para celebrar. Celebro a felicidade ao saber que existem pessoas que se preocupam com o próximo, que em vários lugares do país, os pais ensinam aos filhos que é necessário fazer o bem a alguém. Uma amiga me dizia hoje que ela ainda acredita que o bem é maioria porque se fosse o contrário, o mundo estaria pior. Somos essências deste planeta e devemos ser o melhor para alguém e para nós. Desejar boas energias, ser do bem e proliferar bons sentimentos ainda faz a diferença.

Mesmo sendo muito reclamona, mas nunca deixei de agradecer a vida pelas oportunidades de ter esbarrado em pessoas que me fizeram evoluir, me orientaram e mostraram de forma suave quão prazeroso é viver. Pude viajar e descobrir seres humanos tão belos e que não necessitam de tantos bens materiais para serem felizes. De todas as situações que enfrentamos, sempre é possível tirar um ensinamento.

Na virada do ano, vou fazer os mesmos pedidos que sempre faço há tanto tempo. Continuarei fazendo minha avaliação anual e fazendo planos para melhorar algumas coisinhas em mim e em minutos irei imaginar uma porção de coisas.

Cada um com sua superstição, crença e desejos e que possamos nos unir em orações ou pensamentos positivos em prol de um ano novo com muitos motivos para alegrarmos. Que possamos nos perdoar e perdoar os erros do próximo.

Que o amor seja o sentimento do momento, que a solidariedade e tolerância andem sempre ao nosso lado e possamos enfeitar o nosso interior com o melhor e mais simples da vida. Desejo a todos maturidade, boas energias, doçura, fé, bondade e um ano cheio de encantos e que a voz dos justos jamais se calem. Às todos, feliz ano novo!

Suerlange Ferraz

natal

Entre Palavras e Sentimentos: A Espera do Natal

20/12/2016 10h15

natalPara quem acha que cabelos cacheados não Necessitam de cuidados, lamento informar, mas você está completamente enganado. Têm dias que os cachos estão super revolucionários e querem ocupar mais espaço do que o normal. Quando isso acontece tenho que ir ao salão, e meu cabelo estava em um desses dias de rebeldia, por isso tive necessidade de fazer uma visita a minha cabeleireira.

O salão de beleza é um espaço propício a reencontros, conversas, atualizações dos últimos acontecimentos na cidade. É um lugar em que pessoas são apresentadas àquelas que até então eram desconhecidas e muitas estórias surgem por ali.

De todas as pessoas que já vi naquele salão, uma senhora, creio que era uma cliente novata, chamou a minha atenção. Enquanto eu tomava um cafezinho e esperava a vez de ser atendida, a mulher que aparentava ter em torno dos seus quarenta anos, tirou o lenço laranja que cobria o cabelo e dizia desejar que ele fosse liso. O cabelo dela era crespo e ela o achava feio.

Uma cliente ressaltava a beleza dos cachos e tentava convencer a senhora a deixar o cabelo natural, mas dona Ana era irredutível e queria a escovinha. Era a primeira vez que ela passaria por este procedimento na vida e pensava que ao escovar os cabelos, seus fios sofreriam uma transformação e ficariam lisos para sempre. Ao ser avisada que este milagre não aconteceria, ela foi consultar o esposo que pensava igual a sua companheira. Foi um esforço para a cabeleireira explicar como seria o procedimento que iria realizar, e depois de muita conversa a escovinha começou a ser feita.

Essa senhora dizia que queria se arrumar para esperar uma filha que mora há oito anos em São Paulo e durante este período visitou a mãe apenas uma vez. Esta mulher tem sinais de sofrimento na face e era nítida a vergonha que sentia de seu próprio cabelo. Ainda existem pessoas que associam beleza aos cabelos lisos.

Dona Ana arrumou a casa e deseja estar bonita para receber sua filha. Uma jovem de dezenove anos e que há oito trabalha como empregada doméstica, ou como babá. Uma moça que não vivenciou a infância e juventude, porque tinha que trabalhar para prover seu sustento.

Analisando a conversa da senhora com outras clientes, fiquei pensando em quantas mães estão perfumando a casa e se arrumando para receber seus filhos. Muitas mãinhas são dominadas pelos padrões impostos pela sociedade que as fazem se acharem feias por não terem um cabelo liso. Quantas mãezonas estão tristes em seus quartos, nos asilos, recordando natais lindos que vivenciaram com suas famílias, e hoje a alegria foi substituída por uma tristeza que machuca demasiadamente.

O Natal é antecedido por rituais de preparação. Prepara-se o espírito, uma tinta para dar vida às paredes da casa, enfeites espalhados, estoque de gostosuras nos armários, lista de presentes, amigo oculto, nostalgias, entre outras coisas. Nunca fui fã dessa festa que está tão, tão, tão capitalista. Olhe a exclusão que existe; mesas super fartas e outras tantas o vazio toma conta. E nesses tempos de crise, fartura é uma palavra que não fará parte do Natal de muitos.

Fizeram do Natal a festa do ter. As crianças repletas de roupas e brinquedos precisam ter o último lançamento tecnológico do momento e passaram o ano, ou melhor, alguns meses, porque enjoaram rapidamente de seus brinquedos, isolados do universo, mexendo em joguinhos. Quantas crianças apáticas por aí, quantos pais que querem amenizar a ausência com presentes caros. E a cada novo ano uma geração de crianças tristes e fúteis vai surgindo. Uma geração de egoístas também.

Dona Ana escovou seu cabelo para ficar arrumada e esperar sua filha. Dona Dite, não tem esperança que um de seus seis filhos apareça no asilo para visitá-la e não faz questão de escovar o cabelo. Dona Guida, chora há meses porque seu filho foi assassinado e ela carrega a dor de não receber mais um abraço de Tonzinho, seu menino que um dia saiu de casa com uns colegas e nunca mais voltou.

Dona Ana tinha pouco dinheiro para se produzir e ficar bonitona para recepcionar a filha na rodoviária. Ela é mais uma mãe que passou muitos natais sozinha, e este ano, a festa será diferente. Não sei se sua mesa estará farta no dia 25, mas captei que seu coração está em festa porque uma parte de si estará ao seu lado.

Para cada pessoa o Natal tem uma essência. Eu não sou fã desta festa e tenho inúmeros motivos que não abordarei por aqui. Uma parcela enorme da humanidade está enfrentando problemas sérios. Tantas crianças esperam por uma migalha de pão e outras estão dando seu último suspiro neste instante. Quantas pessoas desejam ter um almoço decente, uma roupa limpa que possa ser usada. Quantos pais estão tristes, pois não tem dinheiro para colocar o básico na mesa e tenho certeza que muitos deles devem estar chorando, porque desejaram ter condição de comprar um presente para seus filhos e infelizmente não deu.

Que no dia do Natal, possamos florir a vida de alguém. Não somente nesta data, mas em qualquer dia, ajude alguém que necessita de um abraço, sorriso, colo, uma comida, roupa, esteja disposto a colaborar com a felicidade dessas pessoas que não conhecemos, mas que estão subjugados em cada canto da cidade, a fome, ao calor, a chuva, ao isolamento e a miséria.

Naquela tarde, dona Ana que não sabia o que era uma escovinha e que não gostou do que sua colega de salão disse, ao afirmar que cabelo cacheado era bonito, me fez pensar, repensar e questionar sobre os estereótipos e os efeitos da “magia” do Natal sobre as pessoas. Espero que ela e sua filha possam ter bons momentos juntas, e um dia, entenda que não é necessário esconder seus cabelos crespos dentro de lenços, porque a beleza consiste na autoaceitação e valorização de como e quem somos.

Suerlange Ferraz

poes211

Entre Palavras e Sentimentos: Os malucos beleza de Poções

07/12/2016 4h25

“Enquanto você

Se esforça pra ser

Um sujeito normal

 E fazer tudo igual

Eu do meu lado

Aprendendo a ser louco

Um maluco total

Na loucura real Controlando A minha maluquez

Misturada Com minha lucidez

Vou ficar

Ficar com certeza Maluco beleza

Eu vou ficar

Ficar com certeza Maluco beleza” (Raul Seixas)

poes211Poções é habitada por muitas pessoas especiais que alegram a população com seus gestos e atitudes. Alguns têm o mistério como sobrenome, tornam-se atração por onde passam e fazem parte da memória dessa cidade. Quando criança ouvia muitas histórias sobre Paulina. Soube de sua existência porque minha mãe dizia o tempo todo que eu ficaria igual a Paulina, porque gostava de guardar muitos papéis em casa. As histórias dessa célebre moradora são famosas na cidade.

Os considerados loucos, problemáticos ou “malucos beleza”, carregam consigo uma bagagem repleta de histórias, alguns, creio eu, preferiram “esquecer o passado”, outros são livros ambulantes pelas ruas de Poções. Essas pessoas foram exclusas da sociedade e viviam ou vivem a mendigar um trocado, alimentos e um pouco de atenção. São indivíduos que ficaram invisíveis perante a sociedade, pois sua presença causa medo ou desconforto para os que os cercam.

Cada maluco beleza traz consigo histórias que não podem ser esquecidas. É preciso guardar as memórias dessa parcela da população que nos alegrou em diversos momentos, em outros, também nos assustou com o jeito de ser, de olhar ou falar. Cada um de nós tem um pouco de maluco beleza. Temos loucuras ocultas ou tão expressas em nossas faces. Sonhamos, às vezes conversamos sozinhos, fazemos alguém rir, temos lembranças, amores, família e uma vida que pode ser exemplo de encanto. Cada maluco beleza que por aqui passou, deixou recordações, talvez partiram sem saber da importância que tinham na cidade e continuam guardados na memória de muita gente.

Deveria existir alguma forma destes queridos malucos beleza serem homenageados pelas autoridades, ou que em projetos escolares, os alunos pudessem ter a oportunidade de conhecê-los. Em uma conversa com um amigo, Roberto Sampaio, ele teve a ideia de que algumas ruas da cidade fossem batizadas com os nomes de alguns “doidos” que se tornaram fontes históricas da cidade.

Dos malucos que eu conheci, destaco alguns que marcaram minha vida. Tico, o rezador, figura extrovertida que ainda encontro quando estou indo para o trabalho. Silvana, já não vive mais em Poções; Chico da saia, um homem que passava pelas ruas da cidade pedindo comida e usava uma saia, peça fundamental para a sua caracterização; Dió, um senhor que remendava suas próprias roupas; Tino, criatura que anda muito, figura alegre e que não perde uma missa.

Tico, o rezador

Trajando uma calça, um paletó, chapéu, sapatos, uma capanga nas costas, sacolas nos bolsos e sempre carregando seus ramos, surge nas ruas de Poções, Tico, o benzedor. Figura alegre e emblemática, faz suas orações sobre as pessoas. O problema é que fala numa rapidez, que é até complicado entender. Puxa várias ladainhas, que segundo ele, tem o poder de curar. Não sei ao certo quantos anos essa figura possui, mas sei que desde pequena o encontrava pelas ruas da cidade. Sempre tive curiosidade para saber o que ele esconde dentro daquele punhado de sacolas que carrega consigo. É o rezador mais carismático que eu conheço,um ser que está presente na memória de muitas gerações.

Silvana

Silvana tinha seu lugar cativo nas missas dominicais, ás vezes chegava cedo, outrora chegava com certo atraso, mas sempre procurava sentar mo mesmo lugar, próximo ao ambão. Lembro das inúmeras vezes em que ela tentava atrapalhar a leitura do evangelho que era feita por seu João, diácono e padrinho dela, para pedi-lhe a benção. Quando alguém sentava em seu lugar, era choro e confusão garantidos.  Silvana carregava um embornal com a liturgia diária, que ela sempre dizia que era presente do seu amado padrinho. Também gostava de carregar uma bíblia. Ela tinha um cabelo curto, ficava mexendo no nariz e toda semana fazia parte dos dizimistas aniversariantes. Faz pouco tempo que soube da sua partida para São Paulo.

 Chico da saia

Estatura mediana, marcas do mau cuidado estampadas no rosto, passos curtos, emitia a frase “Ei, me dá uma coisa aí”. Gostava de vagar pelas ruas e feira da cidade, além de gostar de usar saias, por isso ficou conhecido como Chico da saia. Usava camisetas e tinha algumas saias coloridas, já o vi de vestido, e quantas vezes eu ficava pensando o porquêdele não usar calças como todos os homens que conhecia. Já tive medo dele. Algumas vezes ele esquecia do passo lento e o víamos andando pelas ruas a passos largos e rápidos.

. Quando alguém ria dele, ficava muito nervoso e em alguns momentos até enfrentava os zombadores. Ficava longos períodos sem passar pela rua onde moro, e quando achava que ele tinha sumido, eis que surge dando sacudidas no portão, ou gritando na janela. Chico era uma figura misteriosa que deixou saudades e muitas lembranças com sua partida.

Dió

Já era costume eu sair da missa a noite, dar uma volta pela praça, sentar no banco com uns amigos, ouvir as músicas da Voz do Gaivota, comer pipoca e atualizar os últimos fatos ocorridos na cidade. Ali, pela praça mesmo, via um senhor que ficava sempre nas portas das lojas ou em alguns momentos passava com um saco nas costas atravessando a rua. Nunca o vi pedindo esmolas. Tinha a roupa toda remendada e ele mesmo costurava as suas vestimentas. Dormia sempre em frente a uma daquelas casas comerciais e com um olhar distante acompanhava o movimento da cidade. Era Dió, um idoso que usava uma botina furada e tinha o céu como o teto da sua casa.

Neném

Negro, estatura média e uma voz marcante, na feira, na porta de alguns supermercados e nas missas. Neném adorava entoar seus cantos e soltar o vozeirão quando o silêncio tentava se fazer presente entre os fiéis. Homem de sorriso fácil, conhecia os hits do momento e foi acometido pelo vício do álcool. Viveu a vagar pelas ruas. Maluco beleza, que fez do canto (mesmo nas horas indevidas) sua arma para prender a atenção das pessoas.

Faz alguns meses que ele faleceu e seu canto deve estar ecoando em alguma dimensão deste vasto planeta.

Camarão

Baixo, pele clara, barbudinho, trabalha nas oficinas da vida, adora frequentar as missas e conversa gesticulando. Lembro-me que faz umas danças estranhas que diverte as pessoas. Abre os braços e com os punhos fechados balançao corpo de um lado para o outro. Sempre quer apertar as mãos de todos que estão na missa..

Tino

Negro, de estatura mediana, passos acelerados, gosta de conversar, mas pouco podemos entender. Sempre aparece na igreja, seja durante as missas ou enquanto ela se encontrar aberta. Adora uma camiseta do Flamengo e sempre distribui flores na igreja, nos deixando pensativos sobre como e onde encontra tantas.

Quando eu frequentava as missas, admirava o gesto nobre dele em levar uma moeda para ofertar, mas ele não entregava a moeda no momento do ofertório, sempre a deixava em cima do altar ou a confiava as mãos do sacerdote. Algumas pessoas sentiam medo de Tino, porque o mesmo gostava de apertaras mãos dos presentes durante o “abraço da paz” ou tentava abraçar, o que causava espanto ou temor.

Vejo que hoje Tino é uma figura marcante durante as missas. Admiro o carinho e educação com queo Monsenhor Carvalho lhe trata. Penso que os tidos como “doidos”, enxergam o mundo de uma forma mais simples e alegre do que os tais “normais”, pois quando querem um abraço é uma forma de expressar carinho ou pedir aconchego. Por tantas vezes o medo, o odore o preconceito nos impede de sermos mais humanos, e condenamos essas pessoas a viverem na solidão eterna.

Su Ferraz

fotos-entre-palavras

Entre Palavras e Sentimentos: As diferentes formas de demonstrar o amor

23/11/2016 11h00

fotos-entre-palavrasE as noites chuvosas continuam embalando sonhos, transformando os pingos d’água em música e trazendo lembranças. Hoje a recordação que bateu em minha porta e adentrou em meu ser foi “Você sabe o que é o amor?”.

Sempre achei complicado falar a famosa frase “eu te amo”, passo minutos ensaiando e na hora as palavras ficam presas na garganta e não sai.

Sempre me perguntei se eu era capaz de amar, pois não conseguia demonstrar em palavras ditas tal sentimento. Tenho aprendido que quando não podemos expressar o amor em palavras, ele deverá ser transformado em atos.

Sou fascinada por gestos e costumo guardar em meu bauzinho da memória, detalhes, cores, cheiros, afeto e sons. Acredito que o amor é composto das memórias guardadas em meu baú.

O amor encontrado nos laços de amizade, no cuidado em saber se o outro está bem, em orações, em tirar um sorriso da face de alguém que encontrava-se triste ou no simples fato de dizer ” Ei! Se precisar eu estou aqui, viu!” e isso é amor.

Conheço um casal que não diz “eu te amo”, mas demonstram o zelo na cumplicidade e cuidado para com o outro. A esposa nunca almoça sozinha, mesmo quando a fome aperta, ela opta em esperar o amado para compartilhar o alimento do dia. Ao acordarem, tomam café e varrem o quintal juntos, com poucas palavras e com muito afeto, compartilham a companhia um do outro… e isso é amor.

Quem disse que animal não ama está redondamente enganado. Aladim, meu cachorrinho, costuma me esperar na porta de casa, com as orelhinhas em pé e um alvoroço, pula em mim e eu sinto que ele está feliz com o meu regresso para casa. Mafalda e Belinha também ficam felizes. Mafalda perdeu a visão, mas, a sensibilidade e emoção continuam com ela, e é através do cheiro que ela me encontra e balança o rabinho para que eu saiba que ela está feliz… Isso também é amor.

Meus pais também nunca foram de falar eu te amo, mas sempre demonstraram este sentimento com gestos. Quantas vezes minha mãe deixou de comer algo para que eu e minha irmã pudéssemos comer (uma porção de vezes); meu pai passou a vida na labuta do trabalho árduo para que não faltasse nada em casa… É o amor em gestos.

Quem viveu um amor platônico também soube amar. Esse tipo de amor é idealizado, causa dor, fantasias e nunca sairá de dentro do coração de quem amou. Loucura? Talvez! Mas é um amor que não cobra nada… É só o amor de um coração que na sensibilidade, criou um história dentro de si.

A saudade também é amor. É uma maneira de manter eterno quem partiu para outra dimensão. É o amor nas recordações, na dor, é a saudade mais dolorida que existe. É o amor que ficou no cheiro, nos detalhes e nas lágrimas que caem ao saber que não existe mais aquela presença física… Esse é o amor eterno.

Que eu possa partir para qualquer lugar deste mundo, mas que nunca esqueça que o amor brota da simplicidade, do aconchego e não exige um tostão de ninguém. Amor é sentimento nobre e que fertiliza a alma.

Admiro os que expressam em palavras e atos o amor. Admiro os que amam e são amados, que fazem do lar uma morada decorada por alegria.

O amor está dentro de um abraço, da comidinha feita com tanto afeto, na preocupação com os filhos ou com os pais, no cafuné, na ligação inesperada, na fé, em Deus, no cuidado, na dor, no sofrimento, perdão, em palavras rabiscadas em um papel e em olhares que expressam a felicidade.

Quem ama, floresce. Quem ama vive com mais leveza. Quem ama sabe que a vida vale muito à pena. Mesmo quando o amor machuca e cria ferimentos, é necessário acreditar que um dia aquela dorzinha irá passar (poderá levar anos).

Que eu possa semear amor, do meu jeito louco de ser, contribuirei para que o amor seja espalhado e que ele se faça morada eterna em mim.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: A fé nossa de cada dia!

09/11/2016 3h37

entre-palavras-01Há quase dois anos, eu fui benzida por uma rezadeira super carismática da comunidade quilombola da Lagoa do João, ela foi responsável por fazer orações enquanto passava uns raminhos sobre mim e rezava suas ladainhas. Quando terminou aquele momento, me sentia mais leve.

Dona Maura é uma mulher cheia de fé e domina conhecimentos sobre o poder de cura de algumas ervas da região. Em nosso último encontro, ela dizia como a fé alimenta a pessoa e é benéfica para quem crer.

Existem crenças tão belas como a de Dona Maura e tem as crendices que levam inúmeras pessoas a acreditarem que a doutrina religiosa que segue é superior ao do próximo. Uma crença doentia e que tem vitimizado muitos seres.

É comum aparecer criaturas portadoras de plena convicção de que os participantes de uma religião diferente a sua está condenado ao inferno. Um monte de intolerantes espalhados por aí. É essa intolerância somada a outros fatores que adoece a sociedade.

O intolerante tem um olhar limitado ao mundo do outro, enxerga males nos diversos seguimentos religiosos. É tão estúpido questionar a fé de alguém. Se tem fé independente de frequentar ou não uma religião. Quem tem fé deve respeitar as escolhas do outro.

Tudo que é diferente aos nossos olhos causa estranheza. Normal! O que não deveria causar é ódio. Tem dias que paro e fico tentando entender o que causa intolerância e nunca acho respostas convictas. Tenho repúdio aos discursos vazios e preconceituosos de algumas pessoas quando se referem às religiões de matrizes africanas ou ao espiritismo. Em Poções existem seres dotados de santidade que amaldiçoam os filhos de santo e os espíritas e ainda usam a bíblia para condenar a fé alheia. Qual é o sentido de condenar a fé ou seguimento religioso de alguém? O que a religião do seu vizinho ou conhecido interfere em sua vida? A sua fé te induz a achar-se um ser diferenciado? Meus queridos, cuidado com a fé que cega e limita. Sinceramente, acredito que a intolerância assim como o racismo é uma doença e quem pratica necessita de um tratamento.

Que possamos viver uma fé linda e que nos conduza na melhoria do nosso ser. Ter fé para sermos tolerantes e respeitarmos a diversidade. Eu já não frequento uma religião, vou a uma novena, já fui ao centro espírita, passei por caruru em um terreiro, não perco uma Marcha do Dendê, amo ser benzida por alguma rezadeira/benzedeira, já fui a um ou dois cultos e recentemente tornei-me uma romeira. Eu tenho fé em tudo que me faz bem. Agradeço aos laboratórios vivos que eu frequentei e que me ensinam a conviver com a diversidade.

Tenho um amor pela festa do Divino, fiz desse amor um artigo monográfico e durante minhas pesquisas tive o prazer de conhecer muitos seres de fé. Pessoas simples que devotam ao titular de Poções (padroeiro) suas esperanças e agradecimentos. Muitos devotos seguiam outra religião, mas naquele momento se juntavam aos católicos para um momento de comunhão religiosa.

A fé nossa de cada dia é alimento pra alma. Não necessitamos compreender a crença de ninguém. O mundo carece de gente que plante o bem, de intolerantes já estamos fartos. Deixe os tambores dos filhos de santos ressoarem. Para de fazer cara feia para os espíritas e cuidado porque careta cria muita ruga e estraga a pele. Não faço vista grossa ao preconceito que alguns católicos e evangélicos sofrem. É lamentável assistir o ódio entre pessoas religiosas. Em 2015, durante a Marcha do Dendê a oração de uma senhora diante da Igreja Matriz, fez com que eu parasse para observar aquela cena tão linda. Uma filha de santo, com os braços abertos, fazendo suas reverencias diante de um símbolo católico. Fiquei encantada com aquele momento e desejei que aquele gesto fosse repetido por mais vezes, por mais pessoas e que o ódio que rouba a visão fosse substituído pela fé que encanta a alma.

Sua religião deve ter coisas belas a te ensinar. Tire a trava que limita seu enxergar e saiba que a fé brota de corações férteis e que buscam semear o bem. Por um mundo com boas energias e gente do bem. Que Deus, os bons espíritos, Oxalá, Buda, os anjos da Guarda, o Divino Espírito Santo… nos proteja de todos os intolerantes. Amém!

Su Ferraz

partida

Entre Palavras e Sentimentos: Partida!

31/10/2016 9h48

partidaAcordei com o vento e o céu meio escurecido na última sexta-feira do mês de outubro. Fiquei pensando nessa tal de saudade e da falta que faz alguém que se foi.

Recordei-me da partida dos meus avós e do momento em que lhes dei o último tchau.

Quando as pessoas amadas se vão, pedaços de afeto ficam pelos lugares em que viveram. A saudade preenche todo o espaço da casa e os olhos viram cachoeira.

Quando os vizinhos partem a rua fica maior, e em cada calçada uma boa lembrança dos sorrisos e cumprimentos. A vizinhança se entristece quando um membro sai de cena.  A rua já não tem a mesma alegria, o São João não terá mais aquela fogueira e o morador para alegrar à noite, serão menos cumprimentos e delicadezas quando eu passar apressadamente pela calçada daquela pessoa querida que partiu.

 As estradas também nos tiram vizinhos. Acontecem fatalidades e procuramos explicações para elas. Ficamos paralisados com a notícia precoce e sofremos.

A saudade traz as mais diversas recordações. Deixa o coração doído, pois não sabemos como lidar com as ausências.

O pé de seriguela está florido e isso me trouxe recordações da minha avó. já não sinto tristeza por sua ida, saudadezinha vem e com ela as doces lembranças.

O cheiro do café, a chuva, a comida, os espaços, o aconchego, a música, fotos, os dizeres… E aquela certeza  de que as pessoas amadas sempre estarão conosco.

Na memória, um turbilhão de lembranças. No coração, o melhor daqueles que amamos. E nos olhos, a falta em forma de lágrimas.

 A partida ainda tem muito a nos ensinar.

Su Ferraz