Entre palavras e sentimentos

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Entre Palavras e Sentimentos: Feira; colorido, multidão, cheiros e encontros

20/6/2017 11h20

007De madrugada, as barracas começam a ser montadas. As caixas são abertas e os melhores produtos são selecionados e expostos para atrair os consumidores. Aos poucos, o trânsito humano começa, e as pessoas são seduzidas pela qualidade, bons preços e a boa e eficaz propaganda.

As cores intensas da couve, o perfume das rosas na barraca de dona Ana, as bananas sem carbureto que seu Jaime vende, o vermelho intenso da “talhada” da melancia que enche os olhos e faz a boca salivar. E o que dizer do requeijão que brilha? Por um instante, esqueço as gordurinhas do mal que existem nele e me rendo à tentação de saboreá-lo. Cada barraca uma peculiaridade. Cada comerciante uma figura marcante nas manhãs de sábado.

As pessoas dividem espaços com as barracas, carrinhos de picolé, pamonhas, mingaus e lonas estendidas no caminho. Andar pela feira é dividir pequenos espaços com uma porção de gente, tentando se esquivar a todo momento das sacolas, embornais e se proteger dos pisões.

Os moradores da zona rural acordam com o canto do galo. Alguns caminham um bocadinho para conseguir um transporte e realizar suas compras, outros, vêm vender seus produtos. O homem do campo costuma relatar a falta que a chuva faz no “sertão”, ou contam, com muita satisfação, que em sua região choveu até bastante e deu para juntar água no tanque.

É na feira que encontramos os “nutricionistas” que montam umas receitas em fração de segundos. A “rúcula boa para a visão”, afirma seu Antônio. Remédio para matar verme, eliminar o cansaço, o pano branco, fadiga, osteoporose… Você encontra na garrafada do elixir Leão do Norte, anunciava um senhor baixo, que aparentava ter uns setenta anos.

Dentro do mercadão, farinha, biscoitos, pubas fresquinhas, e o feijão ocupam cada metro quadrado. Açougues, restaurantes, barracas que vendem roupas utensílios, domésticos e especiarias complementam o Mercado Municipal de Poções. Ah! Incensos e material para banho é na barraca de seu Edson, e a poucos metros, encontra-se cestas, cofrinhos no formato de porco e botijão. Ainda é possível deparar com algum senhor comprando pedaço de fumo para fazer seus cigarrinhos.

Feira é contemplação do sagrado produzido pela mãe terra. É local de encontro dos meninos carregadores de compras e sonhos, dos meteorologistas e matemáticos, dos contadores de prosas, dos professores e dos alunos que vêm da zona rural e passam a manhã batalhando pelo sustento. As dificuldades não impedem as manifestações de generosidade e a todo momento somos agraciados com algumas bananas a mais, ou uns dois ou três ovos caipira de presente.

Como é delicioso fazer comprar ao ar livre, tocar nos alimentos e cheirá-los também. Conversar um pouco com os feirantes amigos e andar a passos lentos ao som emitido pelas caixinhas de som que estão distribuídas pela feira. Ainda consigo achar graça das pessoas que comem um punhado de farinha ou experimentam vários biscoitos antes de adquirir o produto. Os mais idosos arrancam tirinhas de bacalhau para sentir a qualidade ao comer, o que acho muito estranho.

Impossível não lembrar as figuras que são rotuladas como os “invisíveis da sociedade”. São aquelas pessoas que juntam uma graninha durante a semana, vão à feira, encontram um bar aberto, bebem excessivamente e posteriormente ficam caídos em calçadas, alguns, machucados. A feira reflete a divisão tão cruel de renda. Enquanto muitos lotam seus carrinhos de compras, outros tantos esperam o término da feira para catar a sobra dos legumes e verduras.

A feira de tantas contradições. Lugar sagrado, porque tudo que envolve alimento possui uma sacralidade. Templo de alegria para quem faz boas vendas e para os que conseguiram encontrar o que desejavam, principalmente, se o precinho for camarada. Depois das compras feitas, o melhor a fazer é tomar um caldo de cana bem gelado, comer um pastelzinho, sentar em um banco e ficar a observar minuciosamente a grandiosidade daquele momento.

Suerlange Ferraz

Seu Homero

Entre Palavras e Sentimentos: O frio anuncia a Festa do Divino

26/5/2017 7h00

FESTA DE MAIO 269Dizem por aí que as baixas temperaturas deixam as pessoas mais nostálgicas e eu comungo com essa ideia. Quando o frio de maio chega a memória fica aguçada, porque é tempo de festa. É o período da fé e religiosidade serem exaltadas pelos devotos de uma cidadezinha aconchegante, Poções. É o tempo da festa, é o momento do Divino Espírito Santo.

E lá se vão quase cento e quarenta anos de festejos. Quantas coisas mudaram por aqui! De um pequeno grupo que se reunia para festejar o homenageado, a um gigantesco aglomerado de pessoas que se encontram anualmente com o mesmo propósito dos primeiros fieis que percorreram esta terra.

O tempo passa, mas o que é sagrado fica eternizado nas pessoas, e quantas lembranças vêm a tona nesse período. Recordações dos leilões, da quermesse, do som mecânico, dos pavilhões, dos encontros dos blocos e da turma do jegue, da roda gigante, que durante anos era uma super atração. Época de recordar as alegrias vividas com a diversão no parque ou dos sustos provocados pelo misterioso mundo da Monga.

Quantos irão recordar daqueles que amavam os festejos e ansiosamente contavam os dias para reviverem o sentimento tão forte de mais uma festa e que quando a bandeira passar, já não estarão mais em suas portas ou janelas, porque foram contemplar a festa em outro plano. Para quem fica o ritual continua, e as memórias dos entes queridos são reavivadas.

Dos olhos emaranhados às mãos estendidas para tocar em uma bandeira, do cheiro que exala das rosas na procissão, ou nas janelas, ao gosto da maçã do amor nas barraquinhas, do cortejo com o mastro a missa de pentecostes, dos bons encontros pela cidade aos shows na praça. Assim é a festa do Divino, cheia de encantos e encontros que serão eternizados em nossa memória.

Mesmo que a fé esteja adormecida, os fogos da alvorada vêm para relembrar que um dos tempos mais encantadores do ano começou. É tempo de renovar as energias, de acreditar fielmente que dias melhores virão e repetir constantemente uma partezinha do hino ao Divino; “A bandeira segue em frente atrás de melhores dias”. A bandeira e cada poçoense seguem em frente, buscando amanheceres felizes e que a justiça, de alguma forma, sobreviva.

É assim, os devotos por onde passam, abrem moradas. O terno de reis do Divino é prova disso. E aquele estandarte que eu conheci ainda muito pequetita, com tio Mituca, é o mesmo que ainda me causa arrepios quando junto as minhas mãos em preces. De todas as emoções, de tantas fotografias e de muitos encontros. Guardo a gratidão por vivenciar, estudar e amar a festa que me possibilitou conhecer um pouco da fé de tanta gente querida. Seu Abdon, um dos reiseiros do grupo de seu Homero e que já não se faz morada neste plano, me dizia que ele era devoto por gratidão e obrigação. Também dona Maria, descalça, com uns dois girassóis em sua mão, agradecia com canto e lágrima a cura de uma doença que acometia um de seus filhos. E assim surgem devotos que silenciosamente, ou não, rendem graças pelos milagres diários.

Mais um período festivo e porções de emoções a vista. Abram as portas, enfeitem as janelas, soltem fogos, deixem os sentimentos aflorarem, façam suas preces e alegrem-se, porque a majestosa festa vai começar – É tempo Dele, Divino Espírito Santo.

 Su Ferraz

Entre Palavras e Sentimentos As diferentes formas de demonstrar o amor

Entre Palavras e Sentimentos: As diferentes formas de demonstrar o amor

18/5/2017 10h28

Entre Palavras e Sentimentos As diferentes formas de demonstrar o amorE as noites chuvosas continuam embalando sonhos, transformando os pingos d’água em música e trazendo lembranças. Hoje a recordação que bateu em minha porta e adentrou em meu ser foi “Você sabe o que é o amor?”.

Sempre achei complicado falar a famosa frase “eu te amo”, passo minutos ensaiando e na hora as palavras ficam presas na garganta e não sai.

Sempre me perguntei se eu era capaz de amar, pois não conseguia demonstrar em palavras ditas tal sentimento. Tenho aprendido que quando não podemos expressar o amor em palavras, ele deverá ser transformado em atos.

Sou fascinada por gestos e costumo guardar em meu bauzinho da memória, detalhes, cores, cheiros, afeto e sons. Acredito que o amor é composto das memórias guardadas em meu baú.

O amor encontrado nos laços de amizade, no cuidado em saber se o outro está bem, em orações, em tirar um sorriso da face de alguém que se encontrava triste ou no simples fato de dizer “Ei! Se precisar eu estou aqui, viu!” e isso é amor.

Conheço um casal que não fala “eu te amo”, mas demonstra o zelo na cumplicidade e cuidado para com o outro. A esposa nunca almoça sozinha, mesmo quando a fome aperta, ela opta em esperar o amado para compartilhar o alimento do dia. Ao acordarem, tomam café e varrem o quintal juntos, com poucas palavras e com muito afeto, compartilham a companhia um do outro… E isso é amor.

Quem disse que animal não ama está redondamente enganado. Aladim, meu cachorrinho, costuma me esperar na porta de casa, com as orelhinhas em pé e um alvoroço, pula em mim e eu sinto que ele está feliz com o meu regresso para casa. Mafalda e Belinha também ficam felizes. Mafalda perdeu a visão, mas, a sensibilidade e emoção continuam com ela, e é através do cheiro que ela me encontra e balança o rabinho para que eu saiba que ela está feliz… Isso também é amor.

Meus pais também nunca foram de falar eu te amo, mas sempre demonstraram este sentimento com gestos. Quantas vezes minha mãe deixou de comer algo para que eu e minha irmã pudéssemos comer (uma porção de vezes); meu pai passou a vida na labuta do trabalho árduo para que não faltasse nada em casa… É o amor em gestos.

Quem viveu um amor platônico também soube amar. Esse tipo de amor é idealizado, causa dor, fantasias e nunca sairá de dentro do coração de quem amou. Loucura? Talvez! Mas é um amor que não cobra nada… É só o amor de um coração que na sensibilidade, criou uma história dentro de si.

A saudade também é amor. É uma maneira de manter eterno quem partiu para outra dimensão. É o amor nas recordações, na dor, é a saudade mais dolorida que existe. É o amor que ficou no cheiro, nos detalhes e nas lágrimas que caem ao saber que não existe mais aquela presença física… Esse é o amor eterno.

Que eu possa partir para qualquer lugar deste mundo, mas que nunca esqueça que o amor brota da simplicidade, do aconchego e não exige um tostão de ninguém. Amor é sentimento nobre e que fertiliza a alma.

Admiro os que expressam em palavras e atos o amor. Admiro os que amam e são amados, que fazem do lar uma morada decorada por alegria.

O amor está dentro de um abraço, da comidinha feita com tanto afeto, na preocupação com os filhos ou com os pais, no cafuné, na ligação inesperada, na fé, em Deus, no cuidado, na dor, no sofrimento, perdão, em palavras rabiscadas em um papel e em olhares que expressam a felicidade.

Quem ama, floresce. Quem ama vive com mais leveza. Quem ama sabe que a vida vale muito a pena. Mesmo quando o amor machuca e cria ferimentos, é necessário acreditar que um dia aquela dorzinha irá passar (poderá levar anos).

Que eu possa semear amor, do meu jeito louco de ser, contribuirei para que o amor seja espalhado e que ele se faça morada eterna em mim.

Suerlange Ferraz

esporte-clube-poções

Entre Palavras e Sentimentos: Domingo, dia de ir ao estádio

17/4/2017 10h30

esporte-clube-poçõesHerdei o gosto pelo futebol do meu pai. Durante muitos anos fui encarregada de anotar os jogos do final de semana para que ele pudesse fazer seus bolões.

Meu pai também foi o responsável por me apresentar o Heraldão, estádio do time do Poções. Creio que fui em apenas quatro ou cinco jogos e foi no período glorioso do time. Recordo da minha felicidade em saber que eu ia ao “Campo de futebol”. A fila, a passagem pela bilheteria, os passos contados até chegar à arquibancada e a procura por um lugar privilegiado.

O entusiasmo e barulho de Tonhão do sambão e CIA animando a arquibancada, algumas bandeiras sendo sacudidas, alguns torcedores próximos ao alambrado e ambulantes circulando com seus isopores. O pipoqueiro ficava parado, próximo a entrada do estádio. Eu passava o jogo inteiro comendo amendoim ou pipoca. Os amendoins vinham dentro de sacos transparentes e as pipocas eram doces e coloridas. Ah! Tinha algodão doce também. Dispensava milho cozido.

Meu pai sentava ao lado de seus amigos. A cada lance, era tecido um comentário, e na hora do gol, meu Deus, uma explosão de felicidade. Pai me explicava o significado de alguns lances e mesmo quando não entendia, fingia estar por dentro de tudo que ele falava para alegrá-lo. Gandula, carrinho, juiz ladrão, olha a falta, palavrões, ele merece expulsão, que cara perna de pau… Eram as palavras que eu mais escutava no decorrer do jogo.

Na minha ultima ida ao estádio houve briga, e depois daquele dia, nunca mais voltei. Mas acompanhava a transmissão pelo rádio, sozinha ou com meu pai. Acredito que poucas meninas tiveram o privilégio de acompanhar seus pais a uma partida de futebol a vinte anos atrás. Amava comentar com meus colegas de como era maravilhoso assistir o “Poções” jogar, e alguns me olhavam com aquela expressão que diz “ela está mentindo”.

O orgulho da nossa cidade, o “Poções”, transformou-se em boas recordações. O time saiu de cena durante anos e faz pouco tempo que vem tentando retornar ao cenário estadual. Time querido, renasça e galgue voos esplêndidos! Tua torcida te espera, as tardes de domingo sentem sua falta e os adversários anseiam pelo seu retorno.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: A panificadora de seu João

04/4/2017 4h31

Screenshot_2017-03-31-21-25-08-1O centro da cidade de Poções ficou entristecido quando a panificadora de seu João Cambuí fechou as portas. Foi uma notícia que demorou a ser digerida pelos seus clientes. Não era apenas um espaço para comprarmos pães e outras gostosuras. Era o lugar dos encontros, momento de escutar alguém comentar sobre futebol e política, conhecer novos frequentadores do ambiente. Era um espaço que se tornou familiar.

Quando eu ia à universidade pela manhã, ficava aguardando o ônibus e olhava a fumaça que saia da chaminé e à tardezinha, eu ou minha mãe, íamos comprar pãezinhos quentes, chimangos e bolo de aipim. Por incontáveis vezes, ficava esperando a chuva passar, porque quem é poçoense sabe, que quando chove uns dez minutos o centro da cidade alaga, e o refúgio, de tantos como eu, era o estabelecimento de Seu João, que sempre paciente e com um sorriso conversava com seus clientes.

Segundo informações cedidas por uma das filhas de seu João, Meire, a panificadora funcionou por mais ou menos sessenta anos. O pioneiro foi seu Arlindo Viera da Silva. Anos depois, seu João assumiu a administração e na última década, um de seus filhos passou a tomar conta do negócio. Quantas gerações se alegraram naquele espaço, que aparentemente era tão pequeno, mas o aconchego do ambiente fazia com que quem passasse por ali se sentisse acolhido.

Em 2017, completa quatro anos que as portas do estabelecimento não se abriram mais. Soube da notícia através de meu pai. Lembro que durante alguns dias, uma placa foi fixada na porta, com um aviso que informava o encerramento definitivo das atividades naquele local. Era inacreditável!

A praça perdeu um dos seus pontos mais charmosos. Não é um charme relacionado ao luxo, mas aos valores afetivos e gastronômicos. Faz muito tempo que não sinto o gosto de um pão tão saboroso, com a manteiga derretendo sobre o miolo macio, ou das maravilhosas bolachas, conhecida pela população como “televisão”, e do biscoito “avoador”.

Seu João, obrigada por ter proporcionado tantos momentos bons aos seus clientes e aos excluídos da sociedade. Sei que o senhor era responsável por distribuir pães a algumas entidades sociais da cidade. A caridade se fazendo presente em um espaço tão acolhedor, tão familiar.

A memória também tem gosto e cheiro. A recordação me trouxe as andanças pela calçada em direção à panificadora, e o cheirinho bom daquele que seria meu lanche ou café da manhã, o pão.

Su Ferraz

ju

Entre Palavras e Sentimentos: A Pequena Juju

16/3/2017 10h35

juToca o sinal, as crianças saem correndo ao encontro de seus pais, e Juju, com lágrimas nos olhos, cabeça baixa e sentindo-se triste, caminhava a passos curtos até o portão da escola.

A menina, ao ver a mãe, corre em sua direção e a abraça. Era um abraço forte e a pequena não escondia a tristeza que sentia. Ao chegar em casa, a garotinha foi questionada pela mãe sobre a tristeza aparente e respondeu:

– Não aconteceu nada, mamãe! Só estou com a cabeça dolorida!

A menina almoçou e foi direto para o seu quarto. Deitou-se para descansar, mas as frases ditas por Lipe, seu colega, não saiam da sua cabecinha. Fazia dias que Lipe a tratava diferente por ela ser a única negra da turma, e hoje ele disse coisas que abalou Juju.

  • Que nariz estranho!
  • Seu cabelo é tão feio!
  • Por que você é tão preta, Juju?
  • Você é estranha!

A pequena Juju tem apenas sete aninhos e não sabe lidar com o preconceito. Afinal, uma boa parcela das crianças que sofrem com o racismo não consegue se defender, porque diante das palavras doídas, a tristeza é mais visível.

Lipe é uma criança mimada. Adora apelidar os colegas, a mãe sempre o defende de seus erros e ele não foi ensinado a respeitar as diferenças. O menino ridiculariza os colegas que apresentam dificuldades na aprendizagem e mesmo que a professora lhe chame a atenção, ele e a mãe atropelam as regras e agem como se tudo fosse normal.

A mãe da garota é dona de um ateliê. Suzanita tem um estilo hippie e o cabelo volumoso é a sua marca registrada. Uma mãe presente e amorosa, que ao ver a tristeza da menina sabia que o problema era maior do que uma mera dor de cabeça.

Suzanita resolveu ir ao quarto da pequena, abriu a porta e viu Juju com seus pequenos olhos vermelhos, devido ao choro. A mãe pegou a filha e a colocou em seu colo, fez um cafuné e novamente quis saber o que houve. A menina resolveu desabafar e contou o que Lipe havia lhe dito.

Suzanita começou a tocar no cabelo de Juju, brincava com aqueles cachinhos e dizia que o cabelo da filha era lindo. Tocava no nariz e afirmava que existia um monte de narizes diferentes. Assim como o tamanho das pessoas não são iguais; nariz, orelha, boca, olhos também são diferentes.

– Nossa cor é linda, filha! Afirmava a mãe.

– Lipe não é igual a você, porque todos tem características peculiares, meu amor! Seu coleguinha não é superior a ninguém.

Juju dizia que não queria voltar à escola, e Suzanita disse que ela voltaria e não aceitaria mais as ofensas do colega.

– Juju, o racismo é uma forma estúpida de inferiorizar alguém. Mas devemos lutar contra essas atitudes. Você é pequena e mesmo assim terá que enfrentar as maldades de algumas pessoas.

– Venha cá! Olhe-se nesse espelho e veja a criatura linda que você é. Sim, somos diferentes em tamanho, sentimentos e beleza. O mundo é habitado por criaturas diferenciadas, minha pequena! Prometa para a mamãe que toda vez que seu colega lhe perturbar você dirá a ele que és única e que todos somos diferentes. Dirá também que tens orgulho da sua cor e desse cabelo lindo.

A menina jurou para a mãe que faria o que ela pediu, e quando Lipe tentou agredi-la com palavras preconceituosas, ela lembrava da conversa que teve com a mãe e repetia para o colega as frases que havia escutado. Ele começou a olhar em volta e percebeu que Juju estava certa. Parou de ofendê-la e a partir desse dia tornaram-se grandes amigos.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: Quem é de casa, chega e vai direto para a cozinha

05/3/2017 8h17
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Foto: Cozinha lindíssima e aconchegante de Cristiane Campos

Eu sei o quão íntima sou de alguém, a partir do momento em que sou convidada a adentrar em sua cozinha. Confesso que fico imensamente feliz ao conhecer esse espaço da casa de um colega ou amigo.

É na cozinha que a conversa flui. Neste lugar, os contos e as recordações se tornam marcantes. É ao redor da mesa que saboreamos o que nos é ofertado, além da companhia de uma ou muitas pessoas queridas. No mesmo espaço, a minha mãe acompanha a “Ave Maria” ou reza do terço transmitida por uma rádio.

Da janela da minha cozinha, posso ver as jabutis brincando em meio aos pingos da chuva, a vida florescendo através das árvores frutíferas e aproveito o tempo para dengar meus cachorros.

Na zona rural é raro encontrar uma cozinha que não tenha fogão a lenha. Ao calor das brasas, famílias relatam os fatos e fardos do dia enquanto tomam um café quentinho e se reúnem ao redor da mesa.

É na cozinha que a família se junta para dividir a refeição e um pouco da vida. É no último cômodo da casa que a mãe tempera a comida com doses de afeto.

Na cozinha, os amigos chegam sem cerimônia. Um chá, um café, uma sopa, bolos, biscoitos, cuscuz, assados, bebidas e um monte de sonhos; discussões, desabafos, comunhão de ideias sobre a mesa. “Nada de notícia ruim por aqui”, dizia a mãe de uma amiga que não permite negatividade sobre sua cozinha. Ela está certa! Segundo crença de uma tribo africana, o alimento é sagrado e nenhuma palavra negativa pode pairar onde ele estiver. Neste espaço sagrado, só quem possui boas energias deve pisar.

É na cozinha de tanta gente que eu sou feliz. É na minha cozinha que recebo tanta gente que já não posso chamar de conhecidos, pois já são de casa. Todos estes elementos juntos alegram o ambiente e enchem meu lar de harmonia.

Que as cozinhas possam ser um dos melhores locais de encontro. Que neste lugar, a felicidade supere as angústias; que nunca faltem discussões sadias e boas gargalhadas.

Que pelas cozinhas que passei as mesas continuem fartas, e a bonança se expanda para o lar de todos. Sei que enquanto escrevo, algum ser humano agoniza por causa da fome. É muito triste saber que muitos desejam ter um pedaço de pão, dignidade, um lar e uma mesa cheia, mas, infelizmente, a exclusão não permite, e o egoísmo de muitos não deixa uma bolacha chegar à boca de uma criança.

Pelas cozinhas que andei, gratidão aos donos. Por cada cheiro, cores dos objetos, formato da mesa, alegria do anfitrião, presença dos animais de estimação e tantos outros elementos. A minha imaginação agradece.

Suerlange Ferraz

solidao00

Entre Palavras e Sentimentos: Para que tanto ódio?

23/2/2017 11h23

solidaoDa cozinha, olho minhas cachorrinhas brigarem, foi uma coisa rápida e em instantes elas já estão de boa. Uma deitou sobre a barriga da outra e dormiram. Diante daquela cena, fiquei pensando no ódio que os homens carregam e fazem questão de exibir nas redes sociais. Juram vingança por pequenos desentendimentos, destilam veneno gratuitamente, torcem pela morte de alguém ou matam pobres animais indefesos.

Nos últimos dias, muito tenho lido sobre este sentimento que adoece a sociedade, pois precisava compreender o que levou algumas pessoas a comemorarem a morte de uma mulher, apenas porque odeiam o viúvo e o partido no qual ele milita. Observar tamanha manifestação de odiosidade nas redes sociais foi estranho e me causou medo. Bateu uma tristeza por saber que minhas cachorras, que são consideradas animais irracionais, brigam e se perdoam, e os tidos “seres racionais”, ao invés de amor e perdão, estão tentando ensinar a conjugar o verbo odiar em várias esferas.

A sociedade está doente? Creio que sim. Vejo crianças que retribuem a ofensa do colega com tapas e ainda dizem “meu pai disse que é assim, se bateu ou xingou, eu tenho que fazer a mesma coisa”. Um cachorro que está deitado em frente a um comércio é surrado e tem uma de suas patinhas quebradas; um ex-aluno foi espancado porque é homossexual e um dos vizinhos acha que o jovem é doente e merecia uma surra, e assim foi feito. O rapaz teve três dentes quebrados por causa da intolerância; Ana foi espancada pelo marido e algumas vizinhas cochichavam que ela mereceu porque quando o esposo chegou em casa, a mulher estava conversando com o leiteiro e vestida com um “toco” de roupa e isso não é coisa de mulher “direita”. Dona Dil comenta com a colega “Deus que me perdoe, mas quando alguém me diz que mora na periferia, misericórdia, morro de medo, praticamente todos são bandidos ou parentes de um”. Tanta gente é contra pena de morte, porque é adepto de uma religião, mas vai para o Facebook curtir ou postar frases fazendo apologia a tal prática. Os exemplos de hipocrisia e estupidez são tantos, que eu poderia passar horas relatando fatos observados no cotidiano.

Estamos vivendo uma era em que muitos têm discursos lindos e práticas horríveis, outros, são abomináveis tanto na teoria quanto na prática. Nossa sociedade passa por um processo de inversão de valores. Sinto que pessoas com bons sentimentos e atitudes nobres estão ficando escassas, ou preferem se omitir por medo das maldades. Os diálogos saudáveis e produtivos são raros, o bullying fere a alma e leva milhares ao suicídio, a religião virou um comércio para os muitos “profetas” do momento.

Tem sido difícil crer em uma humanidade melhor. É triste saber que fotos de pessoas doentes viram memes, e que apesar do avanço tecnocientífico pelo qual passa a humanidade, ainda nos deparamos com pessoas que avaliam alguém pela cor. Os “poderosos” viraram as costas para os miseráveis que vivem nas vielas das cidades. Um monte de desonestos que se tornaram políticos roubaram a esperança de muita gente em um futuro melhor nessa área. Parece que ser corrupto é um lindo adjetivo, e tantos dizem por aí “se eu fosse político roubaria igual a eles”. Poxa! O mundo ficou tão estranho e têm pessoas se esforçando para que ele piore.

Uma sociedade doente enfraquece os sonhos. O ódio adoece as pessoas, a falta de respeito torna-se guerra, a intolerância mata, a falta de boas discussões deixa o intelecto pobre, e quando privamos nosso corpo de bons sentimentos, ele morre aos poucos a cada amanhecer. Não deveríamos defender os bandidos que nos roubam todos os dias, devemos lutar por tantos direitos que estão nos tirando na calada da madrugada.

Para que tanto ódio? Essa doença tão mortal. Ando nostálgica e sinto saudades da compaixão, fé, solidariedade e acima de tudo, o respeito.

Suerlange Ferraz

pic

Entre Palavras e Sentimentos: Pedrinho, o picolé e o amor

29/1/2017 4h41

picOlha o picolé! Só custa R$1,00! Vai um aí? E entoando essas frases, Pedro passa manhã empurrando seu carrinho com picolés por algumas ruas do centro da cidade.

Pedrinho, como é chamado, tem onze anos, negro, baixinho, tagarela, mora em um bairro periférico da cidade e estuda a tarde. O menino desperta muito cedo. Todos os dias às 05h30min está de pé. Quando acorda não encontra mais a mãe em casa, porque ela já havia partido para o trabalho, mas sempre encontra o café fresquinho e bolachas, raras vezes tem pão sobre a mesa.

Dona Lourdes, a mãe de Pedrinho, tem mais quatros filhos. Guinho, o mais velho, faleceu aos 16 anos e se estivesse vivo já teria 25. Foi vítima de bala perdida enquanto entregava pizza em um bairro de São Paulo. Marta tem 23 anos e Ana 22 anos, ambas partiram rumo a capital paulista para tentarem uma vida melhor, a primeira trabalha em um escritório, e a segunda, na casa de um importante médico da cidade de Esmaltina. Seu Jeremias, esposo de Lourdes, saiu de casa quando Pedro tinha apenas dois anos, partiu para o sul do país atrás de trabalho e nunca mais voltou. A única coisa que enviou à família foi uma carta em que dizia ter encontrado uma companheira, estava bem e amava os filhos.

Com a dor do abandono, dona Lourdes via em seus filhos motivos para ter esperanças. Ela chorou durante anos pelo companheiro que se foi e todas as noites derrama lágrimas pela partida prematura do filho. Para garantir o sustento da família, ela pegava trouxas de roupa para lavar, dava faxina em casa, fazia cocadas para que suas filhas pudessem vender no portão da escola do bairro, catava algumas latinhas de alumínio em festas e faz mais de dois anos que trabalha na casa da família Amarilis.

A mãe de Pedro trabalha das 6:00 até às 15: 00 hs, de segunda à sexta e ganha R$ 850,00. Lava, passa, cozinha, faxina, limpa a casinha dos cinco cachorros da família e sempre está escondida nos últimos cômodos da casa. Faz alguns dias que ouviu a sogra de sua patroa dizer que, realmente o lugar de negro é na cozinha, ao comentar que seu sobrinho neto estava na fase de aderir à moda e resolveu afrontar a família ao namorar com uma pretinha do cabelo ruim. Lourdes se recolhia em pensamentos e recordava de quão humilhada foi ao sofrer preconceito racial na infância e adolescência. Quando seu marido foi embora, algumas vizinhas mexeriqueiras a apelidaram de a “neguinha que o marido não quis”.

Não existe um só dia em que ela não se preocupe com o filho. Tem medo que Pedro sofra com a exclusão do mundo e fosse infeliz. Pedrinho vende picolés para ajudar na renda familiar, tem dificuldade de aprendizagem e lê com muita dificuldade, mas sabe fazer cálculos, fato que o ajuda nas vendas. O garoto tem uma mega disposição para conversar durante as aulas. Descobriu estar apaixonado por uma colega cujo apelido é Cacau, mas ela o menospreza por causa de sua cor.

Esse negócio de amor platônico deixa o coração mais sensível e ferido quando a pessoa que queríamos que habitasse dentro dele o esnoba. Pedro sabe que Cacau não quer nem ao menos sua amizade, por ele ser pobre e negro, entretanto mesmo sendo rejeitado ele procurava ser gentil com a coleguinha. Foram incontáveis as vezes que Pedrinho gastava o pouco que ganhara em uma manhã exaustiva de vendas, para comprar doces para a menina que o encantava. Ela recebia o mimo e com ar de superioridade o agradecia.

Pedrinho têm olhos graúdos e um bom coração. Sabe que o amor por Cacau dificilmente seria correspondido, ele é zombado por causa de suas roupas que às vezes apresenta furinhos ou são remendadas. A menina rir das sandálias, maiores que os pés do colega, e o pobre garoto guarda as lágrimas para molhar seu travesseiro a noite; além de passar horas pensando se algum dia viveria um amor correspondido, mesmo sendo pobre e negro. Cacau destroçava aquele coração carente, não por não amá-lo, e sim por esnobá-lo por sua cor e condição social.

Pedrinho e Dona Lourdes, dois sobreviventes das dores que aparecem pelo destino. Uma batalhadora, o outro, um pequeno vendedor que nutre o sentimento por uma menina que o despreza. Uma mãe que sonha em ver pelo menos um de seus filhos com diploma, e o menino que deseja casar, ter dois filhos, ficar rico para ajudar os necessitados. Duas das tantas vítimas de preconceitos espalhados por aí. Afinal, ser da periferia e negro neste país é saber lidar com a labuta e buscar construir o seu espaço arduamente neste mundo tão desigual.

Suerlange Ferraz

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Entre Palavras e Sentimentos: Bye, bye 2016

31/12/2016 10h24

15820188_1385702758129623_1253633098_nUfa! Mais um ano se findando. Tenho a sensação de que o tempo tem corrido muito mais do que o normal, e ainda me lembro dos últimos minutos de 2015 e os primeiros instantes de 2016.

Creio que nenhum esotérico adivinhou que este ano seria tão tenso. Tragédias: aérea, terrestre e política – vivenciamos dias em que o povão continuou sendo colocado para escanteio, panelas bateram e quando era necessário que a voz da indignação ecoasse pelo país, o silencio tomou conta. Quando pensamos que todas as coisas negativas tinham acontecido, eis que surge algo para arrancar uma lágrima ou a tristeza de nós.

Neste país homofóbico, um senhor se preocupou em defender uma vítima que era espancada devido a sua orientação sexual e morreu. Seu Índio foi mais um brasileiro batalhador morto pela arrogância humana. O racismo e a intolerância religiosa continuaram fazendo vítimas e destruindo famílias. A violência rouba a paz de ir e vir tranquilamente pelas ruas das cidades. As tragédias no continente africano continuam invisíveis aos olhos do mundo. As guerras civis estão tirando do mapa cidades e pessoas. Ainda tem muita gente morrendo de fome, sede, dor e injustiça. Em 2016, muitos políticos escancararam suas facetas podres e perversas, fazendo questão de lembrar que o povo só serve para votar e nada mais. Um punhado de corruptos se reelegeram e outros tantos saíram ilesos de seus crimes.

Mas em meio a um ano conturbado, sempre teremos algum motivo para celebrar. Celebro a felicidade ao saber que existem pessoas que se preocupam com o próximo, que em vários lugares do país, os pais ensinam aos filhos que é necessário fazer o bem a alguém. Uma amiga me dizia hoje que ela ainda acredita que o bem é maioria porque se fosse o contrário, o mundo estaria pior. Somos essências deste planeta e devemos ser o melhor para alguém e para nós. Desejar boas energias, ser do bem e proliferar bons sentimentos ainda faz a diferença.

Mesmo sendo muito reclamona, mas nunca deixei de agradecer a vida pelas oportunidades de ter esbarrado em pessoas que me fizeram evoluir, me orientaram e mostraram de forma suave quão prazeroso é viver. Pude viajar e descobrir seres humanos tão belos e que não necessitam de tantos bens materiais para serem felizes. De todas as situações que enfrentamos, sempre é possível tirar um ensinamento.

Na virada do ano, vou fazer os mesmos pedidos que sempre faço há tanto tempo. Continuarei fazendo minha avaliação anual e fazendo planos para melhorar algumas coisinhas em mim e em minutos irei imaginar uma porção de coisas.

Cada um com sua superstição, crença e desejos e que possamos nos unir em orações ou pensamentos positivos em prol de um ano novo com muitos motivos para alegrarmos. Que possamos nos perdoar e perdoar os erros do próximo.

Que o amor seja o sentimento do momento, que a solidariedade e tolerância andem sempre ao nosso lado e possamos enfeitar o nosso interior com o melhor e mais simples da vida. Desejo a todos maturidade, boas energias, doçura, fé, bondade e um ano cheio de encantos e que a voz dos justos jamais se calem. Às todos, feliz ano novo!

Suerlange Ferraz