27/4/2017 - 4h36

Aluno de escola pública na BA passa em Medicina e Direito em federais

O jovem baiano Juraci Sales da Silva, de 23 anos, vive a expectativa de iniciar uma etapa da vida que…

Da Liberdade FM
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fonte-1O jovem baiano Juraci Sales da Silva, de 23 anos, vive a expectativa de iniciar uma etapa da vida que se configura, como ele diz, “a realização de um sonho”. De família pobre e órfão de pai, o caçula de 12 irmãos foi aprovado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Federal de Goiás (UFG) em Direito e Medicina, respectivamente. Ele não vê a hora de começar logo os estudos.

Morador da cidade de Mirangaba, no norte da Bahia, Juraci sempre estudou em escola pública e é o primeiro da família a conseguir ingressar no ensino superior. Com a conquista, busca agora tentar mudar a realidade de vida. “O estudo é o caminho. É importante ter um foco, ter disciplina e determinação que, com certeza, é possível alcançar o obejtivo. A educação é capaz de mudar o ser humano”, afirma.

Com as vagas garantidas, através da boa nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), restava uma dúvida: qual dos cursos iria fazer? Medicina, ele conta, sempre foi um sonho de infância, mas a trajetória de vida o fez optar pelo Direito. As aulas na UFBA, em Salvador, estão previstas para começar já em maio e ele, com a matrícula realizada, está com quase tudo pronto para se mudar para a capital baiana.

“Meu pai era pedreiro e faleceu quando eu tinha três anos. Foi uma pessoa muito escpecial na minha vida. Minha mãe, negra e analfabeta, vive da pensão que recebe por causa da morte do meu pai. Sofreu muito para criar os filhos. E isso tudo me fez optar hoje por fazer Direiro. Escolhi o curso por conta da minha realidade social que foi sempre muito injusta. Sou negro e de uma família muito pobre e sofri por isso. Quero, com a minha profissão, combater as injustiças”, diz.

O resultado da UFBA saiu em julho de 2016. Juraci foi aprovado na segunda chamada. Na primeira, o nome dele também constava, mas ele perdeu o prazo de matrícula e teve de novamente se candidatar à vaga. Em janeiro desse ano, também ficou sabendo da aprovação, outra vez com nota do Enem, para o curso de Medicina na Univesidade Federal de Goiás. “Acho a Medicina uma área muito bonita, porque se dedicar ao outro é algo fantástico, mas pensei muito e decidi escolher Direito”, conta o jovem, que planeja passar em um concurso e se tornar promotor de Justiça.

Estudioso, o jovem mantém em casa uma biblioteca pessoal com vários livros, muito deles doados. “São livros didáticos de todas as disciplinas”, diz o jovem, que conseguiu ingressar no ensino superior após fazer o Enem quatro vezes.

Ao saber da notícia, a família comemorou muito a aprovação. “Quando a gente ficou sabendo que eu tinha passado foi uma alegria contagiante. Toda a familia vibrou e foi uma sensação muito boa. Uma sensação de realmente ter alcançado o objetvo almejado. E quando isso ocorre, é uma grande satisfação”, comemora.fonte-3

Vida

A mãe de Juraci, Claudenice Sales, 63 anos, não é alfabetizada e foi o filho quem a ensinou a escrever o próprio nome. O pai do estudante, que era pedreiro, morreu quando o jovem estava com três anos. A pensão que a mãe começou a receber passou a ser uma das únicas rendas da família. Dona Claudenice também ganhava um dinheiro extra, ou alimentos, lavando roupas para pessoas fora de casa. Ela ainda trabalhava catando lenha e maracujá para vender.

“Com a pensão após a morte do meu pai, ela [mãe] reformou a nossa casa, que foi doada por um tio. Antes, a gente morava numa casinha de palha, como eram as outras da rua. Teve um dia que a casa pegou fogo e, por pouco, não ocorreu uma tragédia. Também passávamos fome. Às vezes, a única coisa que tinha para comer era farinha com café ou farinha com mel. As freiras da cidade ajudavam com alimentos e com remédios também, mas foi um momento muito difícil para as nossas vidas”, lembra.

Juraci conseguiu um emprego na prefeitura da cidade e, com o dinheiro que ganhava, passou a ajudar a mãe nas despesas de casa. Inteligente, também dava aulas de reforço, em troca de dinheiro, para outros estudantes que iriam fazer Enem.

Enquanto isso, alguns irmãos do jovem saíram de casa e foram morar em outras cidades em busca de melhores condições para sobreviver. “Foram crescendo e alguns foram para São Paulo. Um virou jogador de futebol, outros seguiram outras profissões, mas eu fui o primeiro a entrar numa universidade. Minha mãe sempre me incentivou a seguir o caminho dos estudos. Ela sempre encontrou dificuldades por não ter estudado e sempre me disse que a educação era o caminho para mudar a minha vida”, relata Juraci.

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Estudos

Juraci não fez cursinho e estudou em escola pública, tanto no Ensino Fundamental, quanto no Ensino Médio. Depois de já concluído o segundo grau, foi ser aluno ouvinte em uma escola particular. “Eu ganhei uma bolsa e fui assistir às aulas como ouvinte. Era uma forma de reforçar o que eu já tinha aprendido no Ensino Médio. Funcionou com uma espécie de cursinho que me ajudou a passar no Enem”, conta o jovem.

O estudante diz que as videoaulas que assistia em casa também o ajudaram muito. As maiores dificuldades eram na área de exatas, mas hoje, garante, já as superou. “Minha vida foi sempre voltada para o estudo. Sempre foi a minha principal atividade. E o segredo de estudar é a forma como você faz isso. É preciso aprender a aprender. Superei todas as dificuldades nas disciplinas que achava mais difíceis. Me empenhei muito”, destacou.

Para conseguir morar em Salvador, o jovem diz que já solicitou benefícios à UFBA, como auxílio moradia e alimentação. “Como vou [para Salvador] sozinho, já estou pleiteando auxílios que a universidade garante a alunos de baixa renda, que não têm condições financeiras de se manter sozinho na cidade. Então, me manterei lá através disso”, conta.

G1

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